LARISSA ARRUDA, DE BRASÍLIA | BRUNNA SALVINO, DE CAMPO GRANDE
A relação entre o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, não é casual nem discreta. É antiga, profunda e fartamente documentada.
O MS em Brasília teve acesso a material elaborado pelo escritor e analista político Zack Lopez que detalha essa ligação.
Em 1998, os dois fundaram o IDP, instituto que se tornaria um dos polos mais influentes da elite jurídica de Brasília. Em paralelo, assinam há mais de duas décadas o Curso de Direito Constitucional, adotado em faculdades e concursos de todo o país.
A parceria também se estendeu ao plano empresarial. Gonet foi sócio formal do IDP até 2017, quando vendeu sua parte por R$ 12 milhões a Francisco Mendes, filho de Gilmar. O negócio foi registrado na Junta Comercial do Distrito Federal e consolidou o instituto como empresa familiar dos Mendes.
Gonet foi sócio formal do IDP até 2017, quando vendeu sua parte por R$ 12 milhões a Francisco Mendes, filho de Gilmar
Desde então, o IDP esteve no centro de polêmicas por captar patrocínios de grandes grupos econômicos interessados em decisões judiciais.
Em 2017, por exemplo, a J&F, controladora da JBS, destinou mais de R$ 2 milhões ao instituto, em período no qual era alvo de investigações em várias frentes.
Apresentado como centro acadêmico, o IDP tornou-se um verdadeiro hub de poder. Empresas com causas relevantes nos tribunais aparecem como patrocinadoras de seminários que reúnem ministros, parlamentares e empresários.
A linha entre o público e o privado tornou-se cada vez mais difusa, e o nome de Gonet esteve ligado a essa engrenagem por quase duas décadas.
A J&F, controladora da JBS, destinou mais de R$ 2 milhões ao instituto, em período no qual era alvo de investigações em várias frentes
Em agosto de 2025, a PGR arquivou um pedido de investigação contra Gilmar Mendes envolvendo contrato firmado entre a CBF e o IDP.
A suspeita era de conflito de interesse, já que Gilmar atuara em decisões que afetavam diretamente a entidade. Mas a apuração sequer foi aberta: o caso foi arquivado de imediato por despacho do vice de Gonet, Hindenburgo Chateaubriand.
O episódio não foi isolado, mas parte de um padrão. Gilmar foi peça-chave para a indicação de Gonet à PGR. Gonet, por sua vez, comanda um Ministério Público que evita confrontar o Supremo. Quando o nome de Gilmar surge em denúncias, a resposta é invariavelmente a mesma: silêncio, arquivamento, protocolo.
Em agosto de 2025, a PGR arquivou um pedido de investigação contra Gilmar Mendes envolvendo contrato firmado entre a CBF e o IDP
A imagem de Gonet como jurista “técnico e discreto” funciona como escudo institucional para decisões que garantem imunidade prática aos ministros. O Ministério Público, em vez de fiscalizar, atua como sócio.
O IDP nunca foi apenas uma escola. Desde sua fundação por Gilmar, Gonet e Inocêncio Coelho, tornou-se uma “embaixada informal” do Judiciário em Brasília, onde contratos são fechados e patrocínios de investigados aparecem sob o rótulo de apoio acadêmico. Com a saída de Gonet em 2017, a instituição ficou ainda mais concentrada na família Mendes.
Quando um ex-sócio dessa máquina assume a chefia do Ministério Público e, em seguida, arquiva investigações ligadas ao instituto, a confiança institucional se dissolve.
O problema não é apenas a amizade ou a sociedade passada, mas o acúmulo de funções cruzadas: Gilmar influencia escolhas, Gonet ocupa o cargo, o IDP intermedeia contratos e a PGR garante a blindagem.
O problema não é apenas a amizade ou a sociedade passada, mas o acúmulo de funções cruzadas
A nomeação de Gonet para a PGR, anunciada por Lula em reunião que contou com Gilmar e Alexandre de Moraes, foi apresentada como técnica, mas sempre teve caráter político.
Dois anos depois, na recondução, Gilmar voltou à cena como principal fiador, exaltando publicamente o procurador como “um dos grandes nomes do MP brasileiro”.
O resultado é uma Procuradoria moldada para não incomodar o Supremo. Gonet blindou o ex-sócio, arquivou apurações e consolidou uma PGR que não investiga, apenas silencia.
A nomeação de Gonet para a PGR foi apresentada como técnica, mas sempre teve caráter político
Quando instituições se tornam clubes fechados, onde amigos protegem amigos, a Constituição perde força. Não se trata mais de legalidade, mas de impunidade com pedigree.
E resta apenas a pergunta: quem vigia os que mandam, quando até os fiscais já são sócios?























