POR JOÃO FALSTAFF (*)
A Rosângela Lula deu uma entrevista para Mônica Bérgamo, colunista da Folha de S. Paulo.
Ela reclamou dos ataques que recebe. Falou muito sobre uma “caixinha” na qual “as pessoas” queriam que ela estivesse.
Rosângela Lula tem dificuldades de compreender que “as pessoas” e a “caixinha” são, na verdade, as leis e a institucionalidade.
Mas não façamos os ataques que a marmita de porta de cadeia diz receber. Sejamos elegantes na crítica.
O discurso da sra. Lula revela uma confusão estrutural entre sua vida privada e a função pública, entre ativismo pessoal e responsabilidade institucional. O resultado é sua atuação política sem cargo e sem limites legais. Ela vive num palácio e pensa que é uma espécie de princesa rebelde fora da caixa.
Rosângela Lula tem dificuldades de compreender que “as pessoas” e a “caixinha” são, na verdade, as leis e a institucionalidade
Sobre Michelle Bolsonaro ter chamado Lula de pinguço — é difícil manter a elegância — a sra. Lula afirma:
Eu espero que ela tenha ética para saber o papel que ela tem. Eu espero que não se repita o que ela fez. Porque para nós, mulheres, o comportamento dela é muito ruim. Não é sobre ela. É sobre as mulheres.
Já somos muito atacadas. Já temos dificuldade de alcançar lugares de decisão e poder. E quando a gente alcança, precisa ter muita responsabilidade no que faz e fala. E aquele comportamento dela não é o que a maioria das mulheres espera.
A crença de Rosângela, a Lula: seu lugar como princesa-dama é de decisão e poder. Supondo que isso fosse verdade, talvez ela mesma devesse seguir sua própria recomendação. Mas como explicar isso para uma pessoa que está totalmente fora até da caixinha craniana? Com todo respeito…
A sra. Lula atua como se fosse ministra informal, articuladora de políticas públicas, representante diplomática e conselheira presidencial. Tudo sem nomeação, sem cargo, sem responsabilidade administrativa.
Ela fala com orgulho da “plaquinha do gabinete” com o título inventado de “Articulação de Políticas Públicas”. Eu poderia falar em Articululação, mas estou tentando manter o nível elevado do debate público.
A crença de Rosângela, a Lula: seu lugar como princesa-dama é de decisão e poder
O que ela descreve é um exercício paralelo de poder, sem controle, sem transparência e sem legitimidade.
Inconstitucionalidade é a sua caixinha, mas como o nome é longo e difícil, não cabe na plaquinha do gabinete. Eu sugeriria Inconstitucionalulidade para várias plaquinhas em Brasília, mas não vamos fugir do tema… ou da tema…
O orgulho janjístico em dizer que comete desvios é realmente do padrão Lula de governança. Ela revela que entrega documentos oficiais a líderes internacionais, que participa das cúpulas como o G-20 e a COP, e dialoga com chefes de Estado. Todas atribuições exclusivas de autoridades investidas.
A quebra de protocolo virou esse esfarelamento da diplomacia brasileira, mas a sra. Lula está feliz. Saltitando em volta de todas as caixinhas, imaginando que não ocupa nenhuma, porque ela não é dessas.
Na entrevista, não dá para saber se ela é a mulher fortona que não se deixa encaixotar, ou se é uma vítima. “Eu sou uma pessoa normal”, “Quis pegar minha bolsa e minhas cachorras e sair”, “Me deixaram desestruturada”. O apelo de uma coitada que vive um drama pessoal de ser uma princesa-dama que não pode fazer o que bem entende.
O que ela descreve é um exercício paralelo de poder, sem controle, sem transparência e sem legitimidade
Ninguém tem piedade da sra. Lula.
Porque não é fácil. Não é fácil estar nesse lugar em que eu estou. O povo acha “ai, fica viajando”.
Não é fácil, é difícil. Eu sei que quando estou na linha de frente falando com as pessoas, com as mulheres, elas olham através de mim e enxergam o presidente.
Óbvio: eu sou uma pessoa normal, e às vezes talvez me escape [palavras], como foi no caso de [quando ela disse ‘fuck you’] Elon Musk.
Eu também erro. Mas sei que tenho que ter muita responsabilidade no que eu falo.
E eu não faço nada sem ter antes discutido muito com ele [Lula]. As pessoas acham que não, mas a gente dialoga muito. Eu falo muito para ele das minhas angústias.
Às vezes é difícil porque ele é homem, pode não entender dessas angústias. Por isso que ter mulheres ao meu redor é importante, né? Porque hoje eu não tenho as minhas amigas aqui comigo. Elas moram em lugares diferentes.
A retórica da “mulher normal que sofre”, na situação dela, é ridícula e até cruel por vários motivos. Sobretudo porque é quase como uma birra da criança que quer algo que não pode ter. E, nesse caso, uma criança de quase 60 anos.
A retórica da “mulher normal que sofre”, na situação dela, é ridícula e até cruel por vários motivos
A sra. Lula quer ocupar um espaço de poder sem estar submetida às regras. Quer representar as mulheres como se todas as mulheres devessem admirar a lulice de sua vida.
Rosângela, a Lula, apresenta-se como uma espécie de canal espiritual entre o povo e o grandioso Lula. Ela é a ponte entre o povo e o poder. Mesmo sem ter sido reconhecida por nenhum mecanismo institucional. Quem tem Lula não precisa dessas coisas… eu sei.
Paradoxalmente, ao se colocar como reflexo do presidente, como canal emocional entre ele e o povo, Janja reforça exatamente o papel subalterno que diz combater. Como extensão do homem que governa, ela não é ministra, não é parlamentar, não é dirigente.
Rosângela, a Lula, apresenta-se como uma espécie de canal espiritual entre o povo e o grandioso Lula
Apesar de se considerar muito competente para ocupar todos esses cargos, a verdade é que a “linha de frente”, onde ela se autolocaliza, é a linha que liga o quarto ao gabinete com plaquinha.
(*) É um falstaffianista, incorrespondente do NEIM em Brasília, a cidade que também “de dois efes se compõe”, como a Bahia no poema de Gregório de Matos. Texto publicado originalmente em Não É Imprensa, parceiro do MS em Brasília.



























