BRUNNA SALVINO, DE CAMPO GRANDE
O senador Nelsinho Trad (PSD) voltou a se apresentar como articulador de uma solução para a crise da Santa Casa de Campo Grande. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ele afirma ter acionado o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em busca de apoio. O discurso, no entanto, contrasta com o próprio histórico do parlamentar na condução do hospital.
Quando assumiu o primeiro mandato como prefeito da capital, em janeiro de 2005, Trad decretou intervenção na Santa Casa, que se estendeu por oito anos.
Ao fim desse período, a dívida da instituição havia saltado de R$ 37 milhões para R$ 167 milhões. Hoje, o hospital enfrenta dificuldades para honrar compromissos básicos, como o pagamento do 13º salário dos funcionários.
O discurso de Trad, no entanto, contrasta com o próprio histórico do parlamentar na condução do hospital
As informações são do site Vox MS www.voxms.com.br.
No vídeo, o senador alerta para o risco de colapso do hospital. “A Santa Casa não pode colapsar. Isso vai custar vidas. Vai ser muito mais caro deixá-la colapsar e depois tentar trazê-la de volta à normalidade do que qualquer intervenção feita agora”, afirma. Ao final, pede mobilização: “Vamos todos unidos ajudar a Santa Casa. União pela Santa Casa”.
Contradição
Segundo o Vox MS, a defesa enfática do socorro à Santa Casa evidencia uma contradição: “o próprio senador contribuiu — e muito — para que a instituição chegasse à grave situação atual”.
No fim de 2004, ainda na gestão do prefeito André Puccinelli (MDB) e sob a presidência do médico Arthur D’Ávila Filho na ABCG, a Santa Casa já enfrentava uma crise semelhante à atual, durante a gestão da prefeita Adriane Lopes (PP). Naquele momento, a direção decidiu suspender o atendimento no pronto-socorro por falta de condições operacionais.
Pouco depois, em 13 de janeiro de 2005, Nelson Trad Filho editou o Decreto nº 9.131, oficializando a intervenção e requisitando bens do hospital, incluindo o CNPJ e as contas bancárias. A medida contou com apoio do então governador Zeca do PT, do Ministério da Saúde e do Ministério Público estadual e federal, que se comprometeram a acompanhar a gestão, o que, segundo relatos, jamais ocorreu.

Durante a intervenção, a Santa Casa foi administrada por sucessivas juntas interventoras, sob o argumento de profissionalizar a gestão e sanear as contas. À época, a dívida girava em torno de R$ 47 milhões.
Oito anos depois, em maio de 2013, já na gestão do prefeito Alcides Bernal, decisão judicial determinou a devolução do hospital à Associação Beneficente de Campo Grande (ABCG). O passivo, então, já alcançava R$ 167 milhões.
Retórica vazia
Para Wilson Teslenco, presidente da ABCG quando a instituição retomou o controle do hospital, a justificativa da intervenção nunca se confirmou. “A tese do saneamento financeiro não passou de falácia”, afirma.
Teslenco também classifica como retórico o atual apelo do senador por união em defesa da Santa Casa. “Ele teve oito anos para fazer algo positivo pelo hospital e não fez”, diz.
Durante sua gestão à frente da ABCG, Teslenco afirma ter conseguido reduzir a dívida de R$ 167 milhões para R$ 42 milhões, valor registrado quando passou a presidência ao advogado Esacheu Cipriano do Nascimento.
Nas gestões seguintes — de Nascimento, Heber Xavier, Heitor Freire e Alir Terra — a entidade voltou a perder o controle financeiro. Segundo a atual direção, o rombo ultrapassa hoje R$ 600 milhões, com déficit mensal em torno de R$ 14 milhões.

Nova crise
Diante desse cenário, a Santa Casa enfrenta mais uma vez o risco de colapso. Apesar de continuar em funcionamento, o hospital opera com déficit mensal superior a R$ 14 milhões, atribuído não apenas à má gestão da ABCG, mas também ao descompromisso histórico do poder público com a saúde.
Nesta semana, enfermeiros e funcionários administrativos entraram em greve para pressionar pelo pagamento do 13º salário, que acabou sendo parcelado. Já os médicos — tanto contratados via CLT quanto como pessoa jurídica — seguem há meses sem receber salários e a gratificação natalina.



























