ANTONIO CARLOS TEIXEIRA (*)
Parte da mídia esportiva brasileira parece empenhada em um objetivo claro: impedir que Neymar volte à seleção na próxima convocação de Carlo Ancelotti, marcada para o dia 18. O ídolo de milhões de crianças no Brasil e no mundo é julgado todos os dias.
De um lado, há críticas constantes e, muitas vezes, desproporcionais, capitaneadas por Walter Casagrande, Neto, Mily Lacombe, Juca Kfouri, Mauro Cezar Pereira, André Rizek e Vene Casagrande, entre outros. A lista é imensa. Não é apenas análise. Em comum entre eles, a paixão por um campo ideológico.
Amplificados por sites e redes sociais, esses comentaristas transformam cada movimento de Neymar em pauta. Até o trivial vira argumento. Não é análise de desempenho; é vigilância seletiva.
De outro lado, ainda resistem profissionais que se atêm aos fatos — desempenho, números e contexto — sem recorrer a elementos extracampo. Mas essas vozes são cada vez mais raras.
Não é apenas análise. Há um padrão que ultrapassa o campo técnico e constrói uma narrativa negativa
O cenário remete à Copa de 2006. À época, houve complacência com uma preparação falha, simbolizada por Weggis, na Suíça, palco de festa e pouco foco competitivo. O desfecho foi previsível: eliminação nas quartas de final diante da França. Faltou crítica; sobrou conivência.
Duas décadas depois, o padrão se repete. Enquanto o foco recai sobre Neymar, decisões estruturais passam ilesas. A comissão liderada por Ancelotti, ao lado de Rodrigo Caetano, Juan e Taffarel, trabalha em uma lista que pode trazer consequências relevantes em campo.
Há pouca pressão sobre escolhas discutíveis. Danilo e Alex Sandro, com limitações físicas e baixa sequência, passam sem debate. O mesmo ocorre com Lucas Paquetá, que atuou menos que Neymar na temporada e segue tratado como presença natural.
Duas décadas depois, o padrão se repete. Enquanto o foco recai sobre Neymar, decisões estruturais passam ilesas
O treinador italiano, dono de trajetória incontestável, dá sinais de uma equipe com fragilidades, sobretudo no equilíbrio defensivo e na articulação do meio-campo.
No ataque, há excesso. A possível convocação de João Pedro, Matheus Cunha, Igor Thiago e Endrick levanta uma questão direta: quantos centroavantes serão necessários em um elenco de 26 nomes?
O contraste é evidente: para alguns, lupa; para outros, silêncio. E esse silêncio não é aleatório. A concentração de interesses em torno do Flamengo contribui para uma blindagem que distorce o debate.
Jogadores são alçados à prioridade independentemente do momento técnico, enquanto outros nomes sequer entram na discussão.
O contraste é evidente: para alguns, lupa; para outros, silêncio
Nesse contexto, a mesma mídia que insiste em desqualificar Neymar ignora um risco maior: um meio-campo potencialmente desequilibrado e uma convocação baseada, em parte, em critérios questionáveis.
A conclusão é incômoda. Se a seleção seguir por esse caminho, Neymar pode acabar sendo poupado de um eventual fracasso coletivo. Mais do que a presença de um jogador, está em jogo a consistência dos critérios e a ausência de cobrança qualificada.
Carlo Ancelotti, por sua vez, dá indícios de trabalhar dentro de um recorte limitado. E, sem pressão crítica consistente, o risco de erro aumenta. Talvez receba um filetizinho de crítica nos estertores do tempo, mas somente se convocar Neymar.
(*) Torcedor e sócio do Santos, jornalista, assessor em órgão público, pós-graduado em Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e especialista em Criptoativos – Rastreamento, Ilícitos Criminais e Tributários (RFB).
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