EDITORIAL
A família Trad nunca demonstrou apreço por partidos políticos. A frase já foi repetida diversas vezes aqui porque talvez seja a que melhor sintetiza a trajetória dos irmãos Nelsinho Trad (PSD), Fábio Trad (PT) e Marquinhos Trad (PV), além do sobrinho Otávio Trad (PSD).
Nas próximas eleições, todos estarão em campo. Não necessariamente no mesmo lado político, mas com um objetivo comum: conquistar novos mandatos, pelos quais têm obsessão.
Ao longo dos anos, os Trad utilizaram partidos como instrumentos eleitorais e não como espaços de construção política, atividade legítima quando exercida com coerência e propósito. Adaptam-se conforme a conveniência. São, em essência, camaleônicos.
Ainda que a família pareça ignorar, partidos exercem papel central em qualquer democracia representativa. Não são meros veículos para disputar cargos no Executivo ou no Legislativo, mas pilares fundamentais do sistema.
Ao longo dos anos, os Trad utilizaram partidos como instrumentos eleitorais e não como espaços de construção política
Nas eleições que se aproximam, haverá um Trad para cada disputa: governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Uma oferta ampla ao eleitor, mas não necessariamente de qualidade comprovada.
Dois dos principais nomes da família — Nelsinho e Marquinhos — já estiveram envolvidos em denúncias de irregularidades. O vereador enfrenta denúncias mais recentes, como o principal beneficiário de um esquema que teria desviado cerca de R$ 300 milhões em suas gestões em Campo Grande (2017-2022).
Fábio Trad, por sua vez, aproximou-se do PT após não conseguir a reeleição para deputado federal em 2022. Sua relação com o bolsonarismo também passou a marcar presença constante no debate público, sendo frequentemente questionado por eleitores nas ruas de Campo Grande.
Dois dos principais nomes da família — Nelsinho e Marquinhos — já estiveram envolvidos em denúncias de irregularidades
Otávio Trad já enfrentou problemas, ainda que no âmbito pessoal, tema que não cabe aprofundar aqui.
Já Marquinhos Trad protagoniza uma trajetória marcada por sucessivas trocas partidárias. Recentemente deixou o PDT para ingressar no PV. Antes, havia saído do PSD para se filiar ao partido comandado por Carlos Lupi. Desde 2022, passou por três legendas.
Agora, estará em uma sigla sob influência histórica de Marcelo Bluma, que, quando candidato, costuma movimentar somas expressivas de recursos do fundo eleitoral, com prestações de contas extensas e pouco questionadas pela Justiça Eleitoral. Com Marquinhos na sigla, o acompanhamento deve ser redobrado.
Independentemente do cenário, a família Trad está sempre presente. E, desta vez, dividida em campos distintos: de um lado, Nelsinho Trad e Otávio Trad tendem a se alinhar com setores de centro e direita em Mato Grosso do Sul; de outro, Marquinhos Trad e Fábio Trad caminham com o PT.
Independentemente do cenário, a família Trad está sempre presente. E, desta vez, dividida em campos distintos
Uma certeza permanece: dificilmente haverá eleição sem um Trad na disputa. Se necessário, os embates se tornam públicos, sem constrangimento. A prioridade é a manutenção de espaços no poder.
A iniciativa privada, onde o esforço costuma ser maior e os resultados são cobrados com rigor, nunca foi território natural da família.
A trajetória também passa por vínculos históricos com o serviço público. Fátima Trad, mãe de Otávio, aposentou-se na Assembleia em cargo herdado do pai, então deputado estadual nos anos 1980. O mesmo caminho seguirá Marquinhos Trad, funcionário efetivo na mesma casa legislativa, também “presente” do pai.
A trajetória também passa por vínculos históricos com o serviço público
Até recentemente, Fábio Trad também ocupava função pública, nomeado na Embratur, com remuneração mensal em torno de R$ 25 mil desde 2023, exercendo atividades remotamente de sua casa em Campo Grande, quando a sede da empresa fica em Brasília (ver aqui e aqui).
Os exemplos se acumulam e revelam um padrão. Nas próximas eleições, caberá ao eleitor decidir: manter esse modelo em funcionamento ou encerrá-lo nas urnas. Porque, mais cedo ou mais tarde, a política deixa de ser abrigo e alguém precisa, de fato, trabalhar fora dela.

























