POR ALEXSANDRO NOGUEIRA
Curiosamente, fui surpreendido ontem (21) com um vídeo publicado no Instagram falando sobre a passagem de Álvar Núñez Cabeza de Vaca pelo Pantanal Sul-matogrossense.
Há uma certa graça e um certo atraso em ver as redes sociais descobrirem agora o desbravador hispânico. Bastou uma produção em inteligência artificial recriar o “Mar dos Xarayes”, com estética de influencer digital para que o conquistador circulasse como novidade entre perfis, reels e cortes (ver vídeo aqui).
Mas, muito antes de a história viralizar, houve quem a tratasse desse tema como assunto de gente grande. Em Mato Grosso do Sul, quem começou a puxar esse fio da saga de ‘Cabeza de Vaca — e os Mitos do Seu Tempo’ pelas terras pantaneiras — foi o historiador Mário Sérgio Lorenzetto, ainda no começo dos anos 2000, quando as redes eram, no máximo, salinhas de bate-papo.
Mas, muito antes de a história viralizar, houve quem a tratasse desse tema como assunto de gente grande
O livro de Lorenzetto insistia em algo que hoje parece evidente, mas que durante décadas permaneceu à margem do imaginário nacional: o Pantanal não é apenas paisagem, é também uma narrativa fundamental da América do Sul.
Antes de virar destino para turistas e pescadores ou causa para religiões ambientais, o bioma já aparecia nos relatos dos espanhóis do século XVI, espantados com aquela imensidão de água doce que chamaram de “Mar dos Xarayes”.

Naqueles séculos do descobrimento, em que portugueses, franceses e holandeses seguiam olhando para o litoral como única origem possível, havia outra travessia: a dos homens perdidos no interior do continente, atravessando rios, febres e territórios indígenas. Cabeza de Vaca surgia não como herói e mais como símbolo do assombro europeu diante de um mundo que não cabia em seus mapas.
Antes de virar destino para turistas e pescadores ou causa para religiões ambientais, o bioma já aparecia nos relatos dos espanhóis do século XV
Há algo de sintomático nisso tudo. A internet costuma operar como se a história começasse no instante em que ela descobre um assunto. O que não viralizou parece nunca ter existido.
Agora, influencers falam do explorador espanhol como quem encontrou uma pepita de ouro esquecida no fundo, mas a memória do Pantanal profundo já vinha sendo escavada havia décadas por pesquisadores, professores e historiadores locais, longe dos holofotes digitais.
A diferença é que, antes, não havia avatar, IA nem legenda. Havia apenas estudo, insistência e o trabalho silencioso de gente como Mário Sérgio Lorenzetto, mostrando que o Pantanal é composto por homens lendários e histórias a céu aberto.
Alexsandro Nogueira é jornalista e escritor
























