LARISSA ARRUDA | DE BRASÍLIA
A crise desencadeada na semana passada pelo vídeo divulgado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ultrapassa as fronteiras nacionais. Em Mato Grosso do Sul, a demora do PL em oficializar as pré-candidaturas do ex-governador Reinaldo Azambuja e do ex-deputado Capitão Contar ao Senado também estaria relacionada à atuação de Michelle nas decisões do partido.
Reinaldo e Contar lideram praticamente todas as pesquisas divulgadas nos últimos dois anos, alternando apenas a primeira colocação. Ainda assim, a definição da chapa permanece indefinida. O MS em Brasília apurou que o impasse observado nacionalmente também se reflete no Estado.
Nos bastidores, dirigentes do partido atribuem parte dessa demora à tentativa de Michelle Bolsonaro de influenciar diretamente a escolha dos candidatos, inclusive em estados onde as pesquisas já apontam um cenário consolidado. O movimento tem provocado desconforto entre lideranças estaduais e dentro da própria família Bolsonaro.
Reinaldo e Contar lideram praticamente todas as pesquisas divulgadas nos últimos dois anos, alternando apenas a primeira colocação
Pedido de dinheiro
Foi Michelle quem divulgou a carta em que o ex-presidente Jair Bolsonaro manifestava apoio ao deputado federal Marcos Pollon na disputa por uma das vagas ao Senado pelo PL. Nos bastidores, interlocutores do partido afirmam que a manifestação teria sido estimulada por ela como forma de reduzir os desgastes enfrentados pelo parlamentar.
Em anotações atribuídas a Flávio Bolsonaro e divulgadas pela imprensa, o senador escreveu que Pollon teria pedido R$ 15 milhões para “não ser candidato”. O episódio ampliou o mal-estar entre Michelle e o filho do ex-presidente.

Antes disso, Bolsonaro havia sinalizado apoio à vice-prefeita de Dourados, Gianni Nogueira, que deverá anunciar nos próximos dias sua pré-candidatura a deputada estadual. Posteriormente, convidou Capitão Contar a deixar o PRTB para ingressar no PL e disputar uma vaga ao Senado.
Em anotações atribuídas a Flávio e divulgadas pela imprensa, o senador escreveu que Pollon teria pedido R$ 15 milhões para “não ser candidato”
A indicação mais recente, porém, recaiu sobre Pollon. O problema é que o deputado não consegue transformar sua forte presença nas redes sociais em intenção efetiva de voto. Nas pesquisas, aparece sistematicamente nas últimas posições entre os principais pré-candidatos, distante do desempenho registrado por Reinaldo e Contar.
Um dirigente de alto escalão do PL em Brasília, ouvido pelo MS em Brasília na semana passada, afirmou que diversas definições partidárias estão atrasadas em razão das interferências da ex-primeira-dama.
Segundo ele, Michelle busca construir um grupo político próprio dentro do partido e da direita, mas sua atuação tem provocado desgaste interno e retardado decisões estratégicas. “Estamos atrasados”, afirmou a fonte.
Na avaliação desse dirigente, se prevalecesse exclusivamente a vontade manifestada pelo eleitor nas pesquisas, a maior parte das candidaturas ao Senado já estaria definida.
Um dirigente de alto escalão do PL em Brasília afirmou que diversas definições partidárias estão atrasadas em razão das interferências da ex-primeira-dama
Números “excelentes”
Em Mato Grosso do Sul, acrescentou, os números de Reinaldo Azambuja e Capitão Contar são considerados “excelentes” e colocariam o PL em condições de conquistar as duas vagas em disputa.
O cenário muda completamente quando Pollon é incluído nas simulações em substituição a Contar. Nos levantamentos divulgados até agora, o deputado aparece entre a sexta e a sétima colocações, atrás inclusive da senadora Soraya Thronicke. Em algumas projeções, sua presença faz o PL perder a segunda vaga para nomes como Nelsinho Trad, Vander Loubet ou a própria Soraya.
O vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro, expondo divergências familiares em público, ampliou ainda mais o desgaste de sua atuação política. Se antes sua influência era exercida principalmente nos bastidores, agora passou a ser alvo de críticas abertas dentro do próprio campo conservador.
Para dirigentes do PL, a ex-primeira-dama precisará definir se pretende exercer um papel de articulação subordinado à estrutura partidária ou continuar assumindo um protagonismo que, na avaliação de parte da legenda, tem dificultado a construção de consensos e atrasado decisões importantes para as eleições de 2026.
O vídeo divulgado por Michelle, expondo divergências familiares em público, ampliou ainda mais o desgaste de sua atuação política
Proximidade com Moraes
Um dos episódios que alimentaram questionamentos entre aliados de Jair Bolsonaro ocorreu durante a posse de Kassio Nunes Marques na presidência do TSE. Na ocasião, Michelle Bolsonaro cumprimentou o ministro Alexandre de Moraes com um abraço e um beijo no rosto.

O gesto repercutiu intensamente entre apoiadores do ex-presidente nas redes sociais, já que Moraes é apontado por bolsonaristas como o principal responsável pelas decisões judiciais que culminaram na condenação e prisão de Jair Bolsonaro no processo relacionado à suposta tentativa de golpe de Estado.
O desgaste aumentou depois que a ex-primeira-dama se referiu a Moraes como “irmão em Cristo”. Pesquisas realizadas após a divulgação do vídeo indicam queda na popularidade de Michelle, enquanto o apoio ao senador Flávio permaneceu estável.




















