POR MARCOS PAULO CANDELORO (*)
Poucas expressões são tão celebradas quanto “democracia”. Ela é citada como fim último de qualquer projeto político, como se o mero ato de contar votos fosse um talismã contra o abuso de poder. Mas convém perguntar: e quando a democracia deixa de ser garantia de liberdade para se tornar apenas outra forma de tirania?
O Brasil de hoje oferece um exemplo desconfortável. Temos eleições, urnas, partidos. E, no entanto, convivemos com censura judicial, perseguição política, insegurança jurídica e supressão de garantias individuais.
Se é possível que um tribunal decida o que pode ou não ser dito, que um Ministério da Verdade decida o que é ou não “desinformação”, e que quem ousa contestar o consenso do dia seja esmagado — que diferença real existe entre isso e uma ditadura clássica?
Mas convém perguntar: e quando a democracia deixa de ser garantia de liberdade para se tornar apenas outra forma de tirania?
Essa não é uma pergunta nova. Alexis de Tocqueville já havia alertado sobre o risco da “tirania da maioria”. Hans Hermann Hoppe foi além, chamando a democracia moderna de “Deus que falhou”. Mas para os sacerdotes do culto democrático, qualquer dúvida é sacrilégio. Se o povo votou, está resolvido — mesmo que tenha votado pela própria servidão.
E o mais irônico: esse modelo cria uma casta de “defensores da democracia” que age como oligarquia de fato. No Brasil, essa casta veste toga, apresenta programas de TV, gerencia verbas públicas e decide quem pode ou não participar do debate público. Tudo em nome da liberdade.
Não se trata de rejeitar eleições, mas de reconhecer que o voto, sozinho, não sustenta uma ordem livre. Sem freios institucionais, sem respeito a princípios inegociáveis — liberdade de expressão, propriedade privada, due process —, o sistema democrático degenera num jogo de soma zero onde quem vence decide até mesmo quem terá o direito de existir politicamente.
No Brasil, essa casta veste toga, apresenta programas de TV, gerencia verbas públicas e decide quem pode ou não participar do debate público
E é esse o ponto que boa parte da imprensa, intelectuais e até liberais de fachada se recusam a admitir: a democracia também pode ser tirânica. Especialmente quando usada como biombo para disfarçar aquilo que, na prática, já não é mais governo do povo — mas de seus novos senhores.
(*) É jornalista, graduado em História (USP), pós-graduado em Ciência Política (Columbia, EUA), especialista em Gestão Pública Inovadora (UFSCAR). Texto publicado, originalmente, no site #Nãoéimprensa, parceiro do MS em Brasília.



























