ANTONIO CARLOS TEIXEIRA (*)
Antes de levantar a taça da Copa do Mundo de 2022 com a Argentina, Lionel Messi viveu um longo período de turbulência com a camisa albiceleste. Em mais de uma ocasião, o craque ameaçou abandonar a seleção, acusado por parte da imprensa e da torcida de ser “frio” ou “pouco comprometido” com o país.
O episódio mais marcante ocorreu em 2016, após a derrota para o Chile na final da Copa América — a segunda consecutiva diante do rival. Messi desperdiçou a primeira cobrança na decisão por pênaltis e, abatido, anunciou o fim de seu ciclo.
— É incrível, mas não dá. Mais uma vez perdemos nos pênaltis. É a terceira final seguida. Tentamos, lutamos, mas não deu. Acabou para mim a seleção. Não é para mim. É uma tristeza enorme. Foram quatro finais e não consegui. Era o que eu mais queria. Para o bem de todos, chegou a hora — desabafou ao canal TyC Sports.
“Acabou para mim a seleção. Não é para mim. É uma tristeza enorme. Foram quatro finais e não consegui. Era o que eu mais queria. Para o bem de todos, chegou a hora” — Messi, em mais uma declaração de despedida da seleção argentina
Em 2020, Messi voltou a ser alvo de críticas. Em certo momento, declarou que tinha vontade de disputar a próxima Copa do Mundo, mas ressaltou que a decisão caberia ao treinador: “Se ele quiser, eu vou. Se não quiser, tudo bem”.
Dois anos depois, no Catar, a Argentina se uniu em torno dele, que teria 35 anos. Companheiros e comissão técnica enxergaram nele a última oportunidade de conquistar a terceira Copa do Mundo. Sem o camisa 10, a chance de título seria mínima.
Entre tropeços e superações, a seleção chegou à final contra a favorita França. Nos pênaltis — justamente o fantasma de Messi — conquistou o terceiro mundial.
No Brasil, Neymar vive um enredo semelhante, mas ainda em aberto. O Mundial de 2026 surge como a última chance de o craque buscar o hexacampeonato. Em outubro de 2023, ele sofreu a lesão mais grave da carreira — rompeu o ligamento cruzado anterior e o menisco do joelho esquerdo — ficando um ano e meio fora dos gramados.
No Brasil, Neymar vive um enredo semelhante, mas ainda em aberto. O Mundial de 2026 surge como a última chance de o craque buscar o hexacampeonato
O retorno ao Santos, em fevereiro deste ano, foi celebrado pela torcida, mas recebido com desconfiança por parte da mídia — e até com torcidas para que se machucasse de novo, algo absurdo. Recomeçar após tanto tempo parado exigiu superar barreiras físicas e psicológicas.
A imprensa, porém, mostrou pouca paciência. Queria que Neymar voltasse jogando em alto nível imediato. Carlo Ancelotti, recém-chegado à Seleção, parece ter sido contaminado por esse clima de desconfiança — alimentado inclusive por vozes internas, como Rodrigo Caetano e Juan, integrantes da comissão técnica.
O italiano deixou Neymar de fora das últimas convocações, apesar de o craque não ter saído da Seleção por indisciplina, mas por lesão sofrida em jogo oficial. Poderia tê-lo deixado de fora, como de fato ocorreu, mas era preciso dosar as respostas diante de uma mídia ávida por ganchos para atacar o santista.
Carlo Ancelotti, recém-chegado à Seleção, parece ter sido contaminado por esse clima de desconfiança
Era o momento ideal para reintegrá-lo, dar confiança e construir novamente a liderança do atacante dentro do grupo. Ancelotti perdeu essa oportunidade. Pior: agiu como se o Brasil pudesse prescindir de Neymar, apostando em um elenco com goleiros contestados, laterais medianos, zagueiros inseguros, volantes lentos e meias pouco criativos. O ataque tem boas opções, mas ninguém com o talento decisivo do santista.
A postura crítica da imprensa reforça esse cenário. Um exemplo é André Rizek, do SporTV, hater declarado de Neymar. Para ele, o camisa 10 hoje sequer encostaria na bola contra a Croácia — uma opinião rasa.
O que se ignora é que a genialidade de Neymar muitas vezes se manifesta em detalhes: um passe improvável, um pênalti sofrido, uma falta cobrada com precisão. Não é preciso carregar a bola do meio-campo até o gol para decidir uma partida.
Era o momento ideal para reintegrá-lo, dar confiança e construir novamente a liderança do atacante dentro do grupo. Ancelotti perdeu essa oportunidade
Se Neymar não for chamado para 2026, quem mais sentirá sua ausência será a própria Seleção Brasileira. Quando a situação apertar, não serão os Weslleys, Brunos, Joellintos, Paquetás, Pedros, Gabriéis ou Kaios que serão chamados para decidir.
Se o time cair cedo, Ancelotti, que tem tratado o tema com frieza e até certo desdém, não terá como se eximir da responsabilidade. Afinal, desde 2002 o Brasil busca em vão um título mundial.
Abrir mão de seu jogador mais talentoso em nome de birras políticas e pressões externas é arriscar outro vexame. A trajetória de Neymar merece ser olhada com atenção — e não tratada com indiferença.
(*) Torcedor e sócio do Santos, jornalista, assessor em órgão público, pós-graduado em Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro pela Universidade Católica de Brasília (UCB), especialista em Criptoativos – Rastreamento, Ilícitos Criminais e Tributários (RFB) e especializando-se em Gestão de Crise no Setor Público.
Perfil Twitter: @actbrasilia



























