OPINIÃO
Em 2 de julho de 2026, durante uma inauguração no Rio Grande do Norte, Lula questionou a proibição de entregar obras depois de 4 de julho.
Eu estou vindo aqui hoje porque só posso inaugurar obra até 4 de julho. Por causa das eleições. Mas eu posso visitar obra. Então, eu vou voltar para ver a faculdade de medicina, outras obras. Mas é fazer visita sem falar nada. Só visitando, assim [acena]. Papagaiada desgraçada.
Mas a papagaiada mesmo veio no dia 3 de julho, quando milhares de reportagens da Agência Brasil foram bloqueadas com a desculpa de atender a lei eleitoral que Lula considera desgraçada.

A Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) estimou que 146 mil matérias, áudios, podcasts e fotos da EBC foram retirados do ar. O governo diz que é só “precaução”. As associações de jornalistas falam em “censura sem precedentes”.
Censura à imprensa? Bem, há controvérsias. Jornalismo oficial é tipo a mercadoria principal do armazém de secos e molhados tão bem descrito por Millôr Fernandes. Release e culto à autoridade e, de vez em quando, algum fio de jornalismo disponível na prateleira para o governo tirar do ar “por precaução”.
Muito se fala dos protestos dos representantes da classe, mas ninguém está fazendo algumas perguntas muito singelas.
Primeiro, se o TSE não mandou apagar os conteúdos, por que o governo se adiantou? AGU e Secom, unidas, produziram suas cartilhas, com sua própria interpretação: nem toda notícia em portal público é publicidade institucional, a análise deve ser feita caso a caso.
Conteúdo com tom de comemoração, exaltação de resultados e promoção do governo é que devem ser retirados. Então, por que notícias que desfavorecem esse maravilhoso governo foram bloqueadas também?
“TCU aprova com ressalvas contas do governo Lula de 2025” foi uma das notícias apagadas. Que exaltação da gestão havia numa reportagem que registrava problemas no controle das renúncias fiscais, na dívida e na análise do empréstimo bilionário aos Correios?
E qual era o risco de promoção eleitoral na matéria “Israel declara Lula persona non grata após fala sobre holocausto”? Também foi bloqueada.
E outras pulgas teimam atrás da orelha. Se era jornalismo, com que direito o governo decidiu o que a EBC tiraria do ar? Se não era jornalismo, mas propaganda do governo disfarçada de notícia, a EBC não deve explicações?
O fato é que a fonte primária de vários jornais é a Agência Brasil. Talvez, todos devam repensar o modo como fazem jornalismo. Quem somos nós para dizer? Aqui não somos imprensa, afinal! Mas os links de milhares de notícias sobre o governo agora levam a esta imagem:

Para evitar a acusação de que usava a EBC como se fosse sua para fazer propaganda eleitoral, Lula tratou todo o “jornalismo” produzido durante seu mandato como se fosse seu.
O Brasil segue temporariamente indisponível para a população há mais de 20 anos. Dedicamos nossa vida e nosso trabalho ao PT por todo esse tempo. Pagamos com alegria os jornalistas da EBC, que passaram esse tempo todo iludidos (?), imaginando que produziam “jornalismo público” e agora receberam a avaliação de seu trabalho: tudo é potencial propaganda do governo.
Brasil não é um país. É um imenso engenho para servir a um partido.
Por Não É imprensa, parceiro do MS em Brasília


















