LARISSA ARRUDA, DE BRASÍLIA | BRUNNA SALVINO, DE CAMPO GRANDE
O que deveria servir para custear despesas essenciais do mandato parlamentar acabou se transformando em um mecanismo que permite o uso de dinheiro público sem controle efetivo sobre a prestação dos serviços contratados.
Durante vários dias, o MS em Brasília realizou levantamento detalhado sobre os gastos dos três senadores e dos oito deputados federais de Mato Grosso do Sul com a chamada Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), o “cotão” do Congresso Nacional.
O resultado revelou despesas milionárias com divulgação parlamentar, pagamentos concentrados em poucas empresas, notas fiscais com descrições genéricas, ausência de comprovação concreta dos serviços executados e dinheiro enviado para fora do Estado.
No período analisado, os gastos da bancada federal de Mato Grosso do Sul com a CEAP somaram R$ 14,1 milhões. Desse total, R$ 7,8 milhões foram torrados apenas com divulgação da atividade parlamentar, mais da metade de todas as despesas pagas com dinheiro público.
O resultado revelou despesas milionárias com divulgação, pagamentos concentrados em poucas empresas, notas com descrições genéricas e sem comprovação
Ao longo da apuração, o MS em Brasília encaminhou pedidos de esclarecimentos aos 11 parlamentares da bancada federal sul-mato-grossense. Apenas três responderam: as senadoras Soraya Thronicke (PSB) e Tereza Cristina (PP), além do deputado federal Marcos Pollon (PL). Os demais parlamentares não apresentaram explicações.
Extravagâncias
Os casos mais expressivos envolvendo recursos públicos foram identificados em pelo menos oito dos 11 parlamentares analisados, com destaque para o senador Nelsinho Trad (PSD) e os deputados federais Pollon, Beto Pereira (Republicanos), Camila Jara (PT), Geraldo Resende (União) e Vander Loubet (PT).

Entre janeiro de 2023 e abril de 2026, Nelsinho Trad gastou R$ 1,3 milhão com divulgação parlamentar. Desse total, R$ 518 mil foram destinados à Engrena Comunicação, de Brasília. As despesas podem ser ainda maiores, já que o senador exerce mandato desde fevereiro de 2019, mas o levantamento considerou apenas os últimos três anos.

Já Pollon percorreu milhares de quilômetros para contratar serviços de comunicação em Maceió (AL). As empresas de Catarina Tenório de Luna Galindo e Adriana Tenório Sehnem receberam, juntas, R$ 273 mil da cota parlamentar da Câmara dos Deputados. O parlamentar aparece como o segundo maior gastador da bancada com divulgação do mandato (ver aqui).
O parlamentar encaminhou nota, mas preferiu criticar o trabalho da imprensa sem detalhar os gastos elevados com divulgação do mandato.
“As despesas mencionadas foram realizadas dentro da rubrica de Divulgação da Atividade Parlamentar da CEAP para custeio de comunicação e divulgação institucional do mandato. Os serviços prestados, bem como sua descrição, constam nas respectivas notas fiscais apresentadas à Câmara e disponíveis para consulta pública no Portal da Transparência”, afirmou.


Sobre a contratação de empresas de Maceió para fazer a divulgação do seu mandato, Pollon mais questionou o site do que explicou: “Causa estranheza a tentativa de transformar uma despesa legal, pública e transparente em suposta irregularidade. Não há qualquer proibição para que parlamentares contratem empresas de comunicação de outras regiões do país”.
Descrição genérica
Também chama atenção a concentração de pagamentos feitos pelo deputado Beto Pereira (Republicanos). Desde janeiro de 2023, ele destinou R$ 550 mil à Triart Comunicação e Marketing, de Campo Grande. Todas as notas fiscais apresentam descrições genéricas sobre divulgação da atividade parlamentar.

A deputada Camila Jara (PT) também teve gastos elevados com recursos da CEAP. Entre fevereiro de 2023 e abril deste ano, ela pagou R$ 537 mil à empresa do fotógrafo Everson Viana Tavares.
Os deputados federais já dispõem de R$ 165,8 mil mensais para contratação de até 25 secretários parlamentares. Ainda assim, a parlamentar desembolsou, em média, R$ 13,7 mil por mês para serviços fotográficos pagos com recursos do “cotão”.

Outro petista, Vander Loubet, também utilizou a verba parlamentar para custear serviços de comunicação. No período analisado, Eder Florêncio Yanaguita recebeu R$ 563 mil, média próxima de R$ 14 mil mensais.
As despesas do deputado Geraldo Resende (União Brasil) também chamam atenção. Somente à empresa K&A Comunicação e Eventos foram pagos R$ 470 mil entre janeiro de 2023 e abril de 2026. Assim como outros parlamentares, as notas fiscais apresentam descrições genéricas dos serviços prestados. O deputado também não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Conhecido por estar entre os maiores usuários do “cotão”, o deputado Dagoberto Nogueira (PP) destinou R$ 355 mil à Cavis Propaganda e Publicidade, de Campo Grande.
Já Rodolfo Nogueira (PL) gastou R$ 445 mil com gráficas em pleno avanço da comunicação digital. Entre fevereiro de 2023 e abril deste ano, o parlamentar contratou três empresas do setor. Apenas a Cocriar Negócios Digitais recebeu R$ 331 mil no período.
O deputado federal Dr. Luiz Ovando (PP), apesar de utilizar a CEAP, foi o parlamentar da bancada com menor volume de gastos considerados excessivos em divulgação. Entre janeiro de 2023 e abril deste ano, ele pagou R$ 167 mil à Gráfica Globo, de Campo Grande.
Já Rodolfo Nogueira (PL) gastou R$ 445 mil com gráficas em pleno avanço da comunicação digital
A senadora Soraya Thronicke (PSB) destinou cerca de R$ 90 mil à empresa Pontocom, de Sidrolândia. O restante dos R$ 339 mil gastos com divulgação foi distribuído entre diferentes empresas do setor.
“A empresa citada prestou serviços pontuais relacionados à divulgação da atividade parlamentar, incluindo ações de prestação de contas do mandato, divulgação institucional de projetos e impressão de materiais gráficos informativos destinados à população sul-mato-grossense”, diz a nota de Thronicke.
Já a senadora Tereza Cristina (PP) praticamente não utilizou recursos da CEAP para despesas de divulgação entre fevereiro de 2023 e abril de 2026.
*Permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a fonte da seguinte forma: Por MS em Brasília, na abertura da reportagem, e Fonte: www.msembrasilia.com, no fim do texto.




















