BRUNNA SALVINO, DE CAMPO GRANDE | LARISSA ARRUDA, DE BRASÍLIA
Dentro de alguns dias, o eleitor de Mato Grosso do Sul voltará às urnas e poderá avaliar os votos dados em 2022, confrontando promessas e resultados daqueles que receberam mandato para representar o Estado em Brasília e na Assembleia Legislativa.
Até 4 de outubro, data do primeiro turno, uma pergunta será inevitável: os candidatos que voltam a pedir votos mantiveram os compromissos assumidos com seus eleitores?
Para o eleitor de direita, a análise tende a ser ainda mais criteriosa. Políticos eleitos com forte apoio conservador mudaram de posição, aproximaram-se de outros campos ideológicos ou passaram a votar de maneira diferente daquela esperada por sua base.
São os chamados “candidatos camaleões”: apresentam-se de uma maneira na eleição e, depois de eleitos, adotam outra postura conforme as circunstâncias políticas.
Políticos eleitos com forte apoio conservador mudaram de posição, aproximaram-se de outros campos ideológicos ou passaram a votar de maneira diferente daquela esperada por sua base
Com base em votações, mudanças partidárias, posicionamentos públicos e processos judiciais, o MS em Brasília reuniu casos que considera merecedores da atenção do eleitor.
Também traz um pouco sobre candidatos que estão no cargo há décadas, como os deputados federais Dagoberto Nogueira (PP) e Geraldo Resende (União) e os deputados estaduais Londres Machado (PP) e Zé Teixeira (PL).

Mudanças de campo político
Simone Tebet (PSB) deixou Mato Grosso do Sul como principal reduto eleitoral e transferiu seu domicílio para São Paulo, onde disputa uma vaga ao Senado. Depois de construir boa parte da trajetória política no centro e receber votos de setores conservadores, aproximou-se do campo político do presidente Lula.
Soraya Thronicke (PSB) percorreu caminho semelhante. Eleita em 2018 na onda bolsonarista, afastou-se progressivamente daquele eleitorado e hoje está filiada ao PSB. Por seis anos, atacou Jair Bolsonaro e seu governo, além de chamar o bolsonarismo de “seita”.
Fábio Trad também protagonizou mudança significativa. Depois de longa trajetória por partidos de centro e centro-direita, filiou-se ao PT. Nesse caso, ao menos, sua posição atual está claramente apresentada ao eleitor.

Marquinhos Trad é outro da mesma família que pula de galho em galho para se acomodar melhor. Foi prefeito de Campo Grande por dois mandatos e sempre disputou eleições por partidos de direita e centro-direita. Para disputar uma vaga de deputado federal, filiou-se ao Partido Verde, aliado do PT em Mato Grosso do Sul.
O vereador é acusado de ser o principal beneficiário de um esquema de desvio de dinheiro aplicado na manutenção de ruas da capital quando foi prefeito. Estima-se que o esquema teria desviado cerca de R$ 300 milhões com serviços de lama asfáltica.
A situação é diferente quando candidatos continuam buscando votos conservadores apesar de uma atuação parlamentar que provoca questionamentos nesse mesmo eleitorado.
Votações e posicionamentos
Na Câmara dos Deputados, Dagoberto Nogueira e Geraldo Resende mantiveram proximidade política com o governo Lula e apoiaram matérias que desagradaram setores conservadores.
Geraldo acumula histórico de conflitos com esse eleitorado desde a pandemia, quando era secretário estadual de Saúde e usou expressões como “nazistas” e “fascistas” ao criticar grupos bolsonaristas.
Dagoberto teve sua atuação na CPMI do INSS questionada pela direita por votos contrários a convocações de pessoas próximas ao governo, a Lula e ao PT. Ao lado de Soraya Thronicke, votou contra as convocações de Lulinha, filho do presidente Lula, e de outros nomes cuja presença era defendida pela oposição.

Geraldo e Dagoberto também trocaram de legenda diante do enfraquecimento do PSDB. O primeiro foi para o União Brasil e o segundo, para o PP, partido da senadora Tereza Cristina. A movimentação aumentou a concorrência interna enfrentada pelo deputado federal Dr. Luiz Ovando, identificado com bandeiras conservadoras.
Mais importante do que contar quantas vezes cada deputado votou com ou contra o governo é verificar como se posicionou nas matérias consideradas essenciais por sua base eleitoral.
Beto Pereira (Republicanos) também chega à eleição com o desafio de apresentar resultados. Nos temas de maior confronto político, adotou postura discreta e evitou parte das disputas ideológicas que dominaram Brasília.
O senador Nelsinho Trad (PSD) desistiu da reeleição, mas seu mandato de oito anos reforça a importância de acompanhar não apenas o discurso de campanha, mas também votações e posicionamentos depois da posse.
AL também exige atenção
Paulo Duarte (PSDB) assumiu a cadeira deixada por Rafael Tavares (PL) depois que a Justiça Eleitoral anulou os votos da chapa do PRTB por fraude à cota de gênero. Com trajetória ligada à esquerda e ao centro-esquerda, Duarte disputa votos em um Estado no qual o eleitorado conservador ganhou peso expressivo.
Outro nome que chama atenção é Lídio Lopes (Avante), marido da prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes. O parlamentar já teve seu nome relacionado a questionamentos sobre eventual participação de servidores contratados pela prefeitura em atividades políticas.

Politicamente, Lídio apoiou em 2022 nomes da esquerda, entre eles Vander Loubet, hoje candidato ao Senado pelo PT, e mantém parceria eleitoral com Dagoberto Nogueira.
Há ainda o debate sobre renovação. Londres Machado e Zé Teixeira acumulam longas trajetórias na Assembleia. Experiência pode ser uma qualidade, mas sucessivos mandatos levantam uma pergunta legítima: até quando os mesmos nomes devem permanecer na política estadual?
A mesma situação se repete com a dupla lulista Dagoberto e Geraldo. O primeiro está no seu quarto mandato, enquanto o segundo cumpre o quinto mandato seguido.
Casos na Justiça
Mais delicados são os casos envolvendo políticos investigados ou processados. Jamilson Name (PP) foi condenado em primeira instância, em fevereiro de 2025, a oito anos de prisão por organização criminosa e lavagem de dinheiro em investigação relacionada ao jogo do bicho. A defesa anunciou recurso.
O histórico judicial envolvendo integrantes da família Name também é conhecido em Mato Grosso do Sul e deverá fazer parte do debate eleitoral.
Gerson Claro (PP) responde a processos relacionados ao período em que comandou o Detran-MS. Nesses casos, é indispensável distinguir acusações, processos em andamento e condenações definitivas, preservando a presunção de inocência.
Outro nome que retorna ao cenário eleitoral é Jerson Domingos (União), ex-deputado estadual e conselheiro aposentado do Tribunal de Contas.
Em 2025, a Justiça manteve sua condenação por posse irregular de arma de fogo, mas reconheceu a prescrição da punição. Domingos também responde processos por supostamente integrar organizações criminosas.

Voto como prestação de contas
A eleição não serve apenas para escolher novos representantes. Serve também para avaliar politicamente quem já recebeu a confiança do eleitor.
Quem pediu voto como conservador terá de explicar eventuais votos contra pautas desse campo. Quem mudou de lado terá de justificar a mudança. Quem está há décadas no poder precisará mostrar por que merece permanecer. E quem enfrenta questionamentos judiciais terá direito à defesa, mas também terá de prestar esclarecimentos.
O político pode trocar de partido, discurso, aliados e até de campo ideológico.
O que não pode exigir é que o eleitor esqueça em quem votou, o que lhe foi prometido e o que aconteceu depois da eleição.
Em 4 de outubro, a memória também estará na urna.
QUEM É QUEM ENTRE OS “CAMALEÕES” DE MS
Trajetória, posicionamentos, alianças e controvérsias ajudam o eleitor a avaliar a coerência política dos candidatos antes de decidir o voto.



























