As urnas deste domingo (4) deram um recado contundente a políticos de Mato Grosso do Sul que construíram suas trajetórias em partidos de centro e centro-direita, mas passaram a caminhar com a esquerda. O eleitor cobrou coerência e deixou nomes conhecidos pelo caminho.
A resposta, porém, não foi completa. O deputado federal Dagoberto Nogueira conseguiu se reeleger pelo PP, embora mantenha posições distantes de bandeiras defendidas pelo eleitorado conservador. Sua permanência expõe uma contradição que a direita ainda precisa enfrentar: a filiação partidária, por si só, não garante compromisso com os valores apresentados ao eleitor durante a campanha.
O episódio chama atenção porque Dagoberto foi levado ao PP pela senadora Tereza Cristina e conquistou a cadeira que poderia assegurar a reeleição de Dr. Luiz Ovando, parlamentar cuja atuação em Brasília esteve alinhada às bandeiras conservadoras. Na prática, o partido manteve o número de deputados, mas trocou um defensor dessas pautas por um aliado de Lula e da esquerda.
Ao patrocinar a entrada de Dagoberto na legenda, Tereza Cristina assumiu uma responsabilidade política pelo enfraquecimento da representação conservadora na bancada. A derrota de Ovando também entra nessa conta.
Uma das derrotas mais emblemáticas foi a da ex-ministra do Planejamento e Orçamento Simone Tebet. Depois de construir sua carreira política em Mato Grosso do Sul, ela transferiu o domicílio eleitoral para São Paulo e trocou o MDB pelo PSB para disputar o Senado no palanque de Lula e Fernando Haddad.
A mudança de Estado não lhe garantiu um novo mandato. Simone terminou atrás de Guilherme Derrite e André do Prado, que conquistaram as duas vagas ao Senado para a direita. Cada um recebeu mais de 4 milhões de votos a mais que a ex-ministra.
Em Mato Grosso do Sul, Soraya Thronicke também não conseguiu renovar o mandato. Eleita em 2018 na onda de apoio a Jair Bolsonaro, a senadora se aproximou de Lula e terminou a disputa em quarto lugar, atrás dos eleitos Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, ambos do PL, e do petista Vander Loubet.
A família Trad, por sua vez, sofreu duas derrotas nas urnas e um recuo na disputa por mandato próprio. Nelsinho Trad desistiu de concorrer à reeleição ao Senado e passou a integrar a chapa de Reinaldo como primeiro suplente. Preservou, assim, uma possibilidade de retornar à Casa, mas sem disputar diretamente a preferência do eleitorado.
Fabio Trad, candidato do PT ao governo estadual, ficou muito longe de ameaçar a reeleição de Eduardo Riedel. O petista recebeu 23,68% dos votos válidos, enquanto o governador conquistou 67,07% e venceu no primeiro turno, com ampla vantagem sobre os sete adversários somados.
Marquinhos Trad, ex-prefeito e atual vereador de Campo Grande, também fracassou na tentativa de chegar à Câmara dos Deputados. Candidato pelo PV, na federação integrada pelo PT e pelo PCdoB, recebeu 31.382 votos e ficou sem uma das oito vagas da bancada federal.
Outro derrotado foi o deputado federal Geraldo Resende, que somou 31.714 votos e não conseguiu a reeleição. Sua trajetória também evidencia a distância que pode existir entre o partido pelo qual um parlamentar se apresenta ao eleitor e as posições que assume durante o mandato.
Um exemplo concreto está no debate sobre a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. Geraldo e Dagoberto se posicionaram contra a proposta, contrariando uma das principais bandeiras defendidas pela direita.
O resultado eleitoral mostra que o eleitor conservador elevou a cobrança por coerência. Mas a reeleição de Dagoberto deixa claro que essa cobrança ainda não alcançou todos os que buscam votos em um campo político e, depois de eleitos, caminham em outra direção.























