BRUNNA SALVINO, DE CAMPO GRANDE | LARISSA ARRUDA, DE BRASÍLIA
“Somos de fora da política, com uma visão mais clara sobre os fundamentos da gestão pública. Trabalhamos com medidas de longo prazo, sem imediatismo. A finalidade é fazer com que a economia funcione adequadamente para que o cidadão tenha aquilo que dá sentido à vida: o trabalho.”
A declaração, feita ao MS em Brasília em 27 de dezembro de 2021, quando ainda era secretário de Infraestrutura de Mato Grosso do Sul, sintetiza a concepção de gestão pública de Eduardo Riedel (ver aqui). À época auxiliar do governador Reinaldo Azambuja, ele já demonstrava a intenção de disputar a sucessão estadual.
Quatro anos depois, Riedel é governador e faz um balanço dos desafios enfrentados em seus três primeiros anos à frente do Executivo sul-mato-grossense. Aos 57 anos, mantém um perfil distante da política tradicional, perceptível sobretudo na forma de conduzir a administração pública.
“Somos de fora da política, com uma visão mais clara sobre os fundamentos da gestão pública” — Então secretário de Infraestrutura, Eduardo Riedel, ao MS em Brasília em dezembro de 2021
Em entrevista exclusiva ao MS em Brasília, concedida em seu gabinete no Parque dos Poderes, em Campo Grande, o governador aborda a conciliação entre crescimento econômico, manutenção de programas sociais e equilíbrio das contas públicas.
Riedel também comenta a articulação política com outros poderes, a possibilidade de disputar a reeleição, o apoio de uma ampla aliança partidária e sua leitura sobre o cenário da sucessão presidencial.
MS EM BRASÍLIA — Como um carioca veio parar em Mato Grosso do Sul? Em algum momento imaginou que chegaria ao governo do Estado? O que mudou nesse percurso?
EDUARDO RIEDEL — Na verdade, nossa família tem uma longa história no Estado. E apesar de ter nascido no Rio, passei boa parte da minha infância e juventude no Mato Grosso do Sul, em Maracaju. Viemos, Mônica e eu, em definitivo ainda muito jovens e recém-casados, para tocar negócios da família e por aqui ficamos, apaixonados por esta terra. Nesses anos, formamos nossa família e transformamos uma fazenda centenária em um empreendimento moderno.
Na verdade, nossa família tem uma longa história no Estado. E apesar de ter nascido no Rio, passei boa parte da minha infância e juventude no Mato Grosso do Sul, em Maracaju
Minha primeira experiência no campo da representação foi no Sindicato Rural, depois Famasul e a direção da CNA. Passei pelo Sebrae e, é verdade, nunca imaginei estar na vida pública, para onde fui por convocação do governador Reinaldo Azambuja. Primeiro como secretário de Governo e Gestão Estratégica, onde coordenei as reformas e a governança; e, depois, na Infraestrutura, uma experiência de execução. Para essas tarefas complexas, sempre carreguei comigo a experiência do privado e ela foi importante para a condução de reformas que reduziram o tamanho do estado, o gigantismo da máquina, os desperdícios, a modernização de processos, tendo como ponto de chegada a eficiência no serviço público e a alavancagem de um novo processo de desenvolvimento regional.
MS EM BRASÍLIA — O senhor saiu da função de secretário para governador em um intervalo de oito anos. O que mais mudou na sua forma de decidir quando passou a ocupar o cargo máximo do Executivo?
RIEDEL — O governador precisa incorporar uma visão muito mais ampla dos desafios que tem pela frente, além dos setoriais, para liderar o processo de desenvolvimento e de transformação da realidade regional. É uma outra dimensão e responsabilidade, pois cada decisão do governo afeta a vida de milhares de pessoas, todos os dias. Portanto, exige capacidade técnica, mas também sensibilidade social, articulação política e cumplicidade com a sociedade que representa, para haver legitimidade.
MS EM BRASÍLIA — Entre a teoria da gestão pública e a prática do dia a dia na Governadoria, o que mais surpreendeu alguém que nunca havia exercido um cargo eletivo?
RIEDEL – É o paradoxo permanente entre a possibilidade de fazer muito mais e os limites impostos pelas circunstâncias derivadas, às vezes, do arcabouço legal, da dinâmica política, das (até justas) pressões por demandas diferentes e complexas; a disponibilidade de recursos e o imperativo do equilíbrio fiscal. Tudo isso, entre muitas outras coisas, são condicionantes importantes do processo de governança. Ainda assim, pessoalmente, tenho buscado preservar aquele sentimento de inconformismo que habita o cidadão comum que sempre fui e continuo sendo, em relação aos deveres e obrigações do estado. É ele que potencializa em nós, gestores, as novas ideias e a busca obsessiva por inovação e resultado.
Pessoalmente, tenho buscado preservar aquele sentimento de inconformismo que habita o cidadão comum que sempre fui e continuo sendo
MS EM BRASÍLIA — O senhor recebeu um Estado com as contas equilibradas, mas imprimiu um estilo próprio de gestão. Qual foi a principal decisão para manter o ritmo de crescimento e competitividade de Mato Grosso do Sul?
RIEDEL — A convicção de que não há prosperidade coletiva, sem crescimento contínuo, sustentado e sustentável, compromissado com o conceito de que precisamos avançar sempre mais, sem deixar ninguém pra trás. Esta tem sido a nossa direção, desde o início das reformas até os grandes programas em execução, que agora alcançam um importante grau de maturidade institucional. Não tenho dúvidas de que esse modelo de gestão, no médio e longo prazo, ultrapassa a discussão de simples iniciativas de governo para se tornarem políticas de estado, que deixam um legado e políticas estruturantes de longuíssimo prazo, com foco no resultado para toda sociedade.
MS EM BRASÍLIA — Em 2025, o governo precisou rever despesas diante da frustração de receitas. O senhor optou por medidas de contenção. Onde foi mais difícil cortar e qual foi o critério principal dessas decisões?
RIEDEL — Os governos estão sempre sujeitos a lidar com variáveis fora do controle da área pública. Foi o que ocorreu: a queda do gás boliviano, em face de uma produção menor, a entrada do gás do pré-sal e mais oferta no mercado, reduziram a nossa importação, que ainda tem hoje um peso importante nas receitas. E o impacto do clima sobre a produção, com longas ondas de calor, ou chuvas em excesso em curto período, atingiram a nossa economia. O desequilíbrio não veio da irresponsabilidade fiscal, mas de uma receita projetada que não se realizou. Como a solidez fiscal é pilar do nosso governo, fizemos o dever de casa, cortando gastos de custeio e reprogramando investimentos, sem que houvesse perda substantiva do que foi planejado, felizmente. É importante destacar que optamos por manter a menor alíquota de ICMS do país, ainda que enfrentando dificuldades na arrecadação. Mantivemos os mais altos índices de investimentos do Brasil sem aumentar impostos.
Os governos estão sempre sujeitos a lidar com variáveis fora do controle da área pública. Foi o que ocorreu: a queda do gás boliviano, em face de uma produção menor, a entrada do gás do pré-sal e mais oferta no mercado, reduziram a nossa importação, que ainda tem hoje um peso importante nas receitas
MS EM BRASÍLIA — Após três anos de gestão, o senhor avalia que os mecanismos de controle, integridade e compliance do Estado são suficientes para prevenir irregularidades ou ainda precisam avançar?
RIEDEL — Sempre será possível avançar mais, em qualquer área de governança. Temos um grande orgulho do que já foi realizado, com o reconhecimento nacional do alto grau de transparência instalado no nosso governo e o trabalho efetivo e inovador da nossa Controladoria Geral.

Um amplo e complexo arcabouço legal vem sendo progressivamente instalado, porque esta não é uma decisão vertical, de baixo para cima, na medida em que depende do compromisso institucional — e este já existe; mas também de um envolvimento efetivo do corpo de servidores e de modernização de processos para superar uma série de entraves da cultura burocrática. Os resultados do compliance sul-mato-grossense são emblemáticos e exemplares, mas podemos e queremos avançar mais. Por isso demos inclusive um novo passo, oferecendo este programa em regime de parceria aos municípios. Como disse, todas as áreas no serviço público, de maneira geral, demandam muitas mudanças para ajustar o estado brasileiro à realidade.
MS EM BRASÍLIA — A política de desenvolvimento sustentável se tornou uma marca da sua gestão. Ela é uma convicção pessoal ou uma estratégia de posicionamento de Mato Grosso do Sul no cenário nacional e internacional?
RIEDEL — Ambas as coisas. Estamos vivendo um momento único na história e está a nossa frente, esmurrando a porta, a maior oportunidade jamais experimentada por um país como o Brasil: a transição energética e a segurança alimentar, demandadas agora pela necessidade de mudanças no modelo de produção. Tocamos esta agenda com muito vigor, porque acreditamos nela, como novo modelo de desenvolvimento. Por isso assinamos o compromisso com uma economia de carbono neutro, com 20 anos de antecipação — já em 2030. Fomos o segundo estado brasileiro a fazer o nosso inventário dos gases de efeito estufa e a aprovar um plano real, concreto, de trabalho: programas de produção orgânica que são hoje referências nacionais; estratégias planejadas de execução, como a recuperação de terras degradadas e sua conversão em áreas produtivas, impactando, assim, poderosamente, o patrimônio natural preservado. A monetização do princípio da preservação, com os PSAs (Pagamento por Serviços Ambientais) e atração de indústrias limpas, como a da celulose, com suas florestas plantadas que sequestram carbono, geram créditos, mas também investimentos, dinâmica econômica local, empregos, renda e mobilidade social.
Fomos o segundo estado brasileiro a fazer o nosso inventário dos gases de efeito estufa e a aprovar um plano real, concreto, de trabalho
MS EM BRASÍLIA — O governo esteve presente em eventos nacionais e internacionais nesses três anos. Em termos concretos, o que essa exposição trouxe de retorno para Mato Grosso do Sul?
RIEDEL — Credibilidade, diferenciação e abertura de novos mercados. Fiz questão de estar presente no maior número possível de agendas, para apresentar a perspectiva nova do Mato Grosso do Sul em campos muito diversos. No Brasil , são raros os estados que experimentam um processo de desenvolvimento como o nosso, praticando impostos reduzidos (a menor alíquota modal do país), alta capacidade de investimento público nas áreas que dão suporte ao crescimento; transparência no mais alto grau; segurança jurídica e incentivos bem calibrados e oportunidades de quem cresce acima da média nacional há alguns anos; vive pleno emprego, expansão da renda média, qualifica mão de obra em massa, reduz a 2% a pobreza extrema e lidera a mobilidade social no país.
MS EM BRASÍLIA — O senhor vem do agronegócio, mas governou olhando o conjunto da economia. Para os próximos anos, o motor do crescimento continuará sendo a produção primária ou a agroindústria tende a ganhar mais espaço?
RIEDEL — Temos a agroindústria que mais cresceu no Brasil na última década e meia, acompanhando a poderosa vitalidade do nosso agro. São elos da mesma engrenagem que avançam de forma sinérgica e transformadora. Uma induz a outra e ambas crescem juntas, realizando nossa histórica vocação para a produção.
No Brasil , são raros os estados que experimentam um processo de desenvolvimento como o nosso, praticando impostos reduzidos (a menor alíquota modal do país)
MS EM BRASÍLIA — Seu governo conseguiu reunir partidos de esquerda, centro e direita. Foi difícil construir essa base ampla? O que mudou na sua relação com partidos de esquerda em MS?
RIEDEL — Sempre acredito que somos resultado do que deseja nossa sociedade organizada. Disputamos a eleição passada nos preocupando menos com a política e mais com os desafios do estado. Fomos para as ruas para discuti-los — ouvindo, debatendo, recolhendo contribuições importantes. Daí um programa técnico, baseado em dados e evidências, realista.

Defendemos, em suma, um estado próspero, verde, inclusivo e digital e estes ainda hoje são os pilares que conduzem o nosso governo. Recebemos contribuições de todos os setores e campos políticos, porque há neles lideranças com o mesmo propósito, assim como há também os representantes do atraso. Essa nuance fundamental, a meu ver, calibrou muito bem a gênese do nosso governo. Não é apenas e tão somente ser de direita ou de esquerda, mas ter disposição para contribuir e capacidade de oferecer soluções para os problemas estruturais do estado. É nesta direção que espero que o país reduza ao máximo essa polarização ideológica, que só interessa aos extremos, lado a lado. Advogo como prioridade máxima o Brasil real, aquele que impacta o cotidiano das pessoas, nas ruas, com seus antigos e renitentes problemas e desafios imensos.
Defendemos, em suma, um estado próspero, verde, inclusivo e digital e estes ainda hoje são os pilares que conduzem o nosso governo
MS EM BRASÍLIA — O senhor venceu a primeira eleição que disputou, chegando ao segundo turno como um nome fora da política tradicional. A experiência de 2022 muda sua forma de encarar uma nova campanha em 2026?
RIEDEL — Sinceramente, acredito que continuo sendo um nome de fora da política tradicional. Procuro conviver com todos de forma respeitosa, sem preconceitos e pré-julgamentos, sempre aberto a ouvir, inclusive críticas, porque é assim que a gente conserta o que eventualmente não está funcionando bem. Acho que sempre haverá espaço para as boas ideias e para quem quer contribuir de verdade com a busca de um estado mais presente, eficiente e justo em suas decisões. Essa é a minha natureza e meu compromisso com o coletivo.
MS EM BRASÍLIA — O senhor deve chegar a 2026 com um amplo arco de alianças. Como administrar tantos apoios na definição de espaços políticos, como vice-governador e candidaturas ao Senado?
RIEDEL — Ainda é muito cedo para que o cenário eleitoral se imponha. Até o meio do ano, há muita coisa ainda para acontecer e vamos tocar no nosso projeto como sempre fizemos — buscando ampla participação de todos no nosso programa – esse sempre será o nosso primeiro degrau: ter um programa claro, transparente, participativo, assentado sobre bases reais, técnicas, e aberto a receber contribuições de todos os que acreditam neste caminho que estamos trilhando e desejem participar.
Sinceramente, acredito que continuo sendo um nome de fora da política tradicional
MS EM BRASÍLIA — No cenário nacional, com a possível ausência de Jair Bolsonaro da disputa presidencial, o senhor acredita que a direita ainda busca um nome de consenso para enfrentar o presidente Lula? Tem algum nome preferido?
RIEDEL — Tenho defendido a tese da unificação em torno de uma candidatura consensual, preparada, qualificada e com capacidade de apresentar um projeto para o país — para o Brasil real. Neste momento, isso é mais importante do que especular a escolha de nomes. Todos os que estão aí colocados, no nosso campo, tem o legítimo direito se apresentarem e colocarem suas histórias à disposição de um projeto nacional. Mais importante, no entanto, é ter o que oferecer ao país.
MS EM BRASÍLIA — Sua trajetória mostra a entrada de um gestor do setor privado na política. Esse modelo tende a crescer no Brasil ou ainda encontra muita resistência dentro do sistema político tradicional?
RIEDEL — Cada eleição é um trecho de história. E por tudo que já aconteceu, acredito que estamos caminhando na direção de um líder preparado, capaz, que represente um novo projeto para o Brasil.
Tenho defendido a tese da unificação em torno de uma candidatura consensual, preparada, qualificada e com capacidade de apresentar um projeto para o país – para o Brasil real
MS EM BRASÍLIA — O Eduardo Riedel que chegou ao governo em 2023, legítimo outsider, aprovaria as decisões tomadas pelo governador Eduardo Riedel ao longo desses três anos? O que faria diferente?
RIEDEL — Os resultados de Mato Grosso do Sul falam por si.





















