EDITORIAL
Para a deputada estadual Gleice Jane (PT), aparentemente não basta ampliar a presença feminina na política: é preciso que as mulheres eleitas estejam alinhadas à sua cartilha ideológica. Essa é a leitura que sua manifestação sobre a futura colega Gianni Nogueira (PL) permite fazer.
Ao Campo Grande News, a petista questionou se a eleição de Gianni representará reforço às pautas feministas e manifestou preocupação com a possibilidade de ter uma parlamentar que atue contra as mulheres.
“Esse projeto da extrema direita é um projeto antimulheres. Então ainda vamos conhecê-la aqui melhor, mas me preocupa se nós vamos ter uma mulher contra as mulheres aqui na Assembleia Legislativa”, afirmou.
Antes mesmo da posse, portanto, a deputada eleita já enfrenta a suspeita lançada por quem deveria, no mínimo, aguardar seu trabalho para julgá-la.
A contradição é evidente. Defende-se a presença de mais mulheres nos espaços de poder, mas, quando uma conservadora conquista uma cadeira, sua contribuição passa a ser colocada em dúvida. A representação feminina parece perder valor quando a eleita não pertence ao campo político considerado aceitável pela esquerda.
A petista questionou se a eleição de Gianni representará reforço às pautas feministas e manifestou preocupação com a possibilidade de ter uma parlamentar que atue contra as mulheres
Gleice confunde defesa das mulheres com adesão ao seu projeto partidário. Mulheres não formam um bloco de pensamento único, não pertencem ao PT e não precisam pedir autorização ao feminismo de esquerda para participar da vida pública.
Uma parlamentar pode defender a maternidade, a vida, a família, a segurança, a autonomia econômica e o combate à violência doméstica sem repetir os mesmos discursos da petista. Pode discordar da esquerda sobre aborto e educação e, ainda assim, trabalhar pelas mulheres que representa.
É justamente essa diversidade que a manifestação de Gleice desconsidera. Ao colocar Gianni sob suspeita por sua orientação política, a petista transforma uma divergência ideológica em julgamento antecipado sobre a legitimidade de sua atuação.
Gleice confunde defesa das mulheres com adesão ao seu projeto partidário
O debate sobre a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara também merece cobrança. A escolha de Erika Hilton, uma mulher transexual para presidir o colegiado pode e deve ser discutida politicamente, inclusive quanto à prioridade dada a questões como gravidez, saúde reprodutiva e assistência à maternidade. Nenhuma presidência de comissão está acima da crítica ou dispensada de apresentar resultados.
O que não faz sentido é exigir reconhecimento automático para as escolhas da esquerda e, ao mesmo tempo, questionar previamente a contribuição de uma mulher conservadora eleita pelo voto popular. Se o critério é compromisso com as demandas femininas, ele precisa valer para todas.
Vice-prefeita eleita de Dourados em 2024, Gianni Nogueira conquistou 36.108 votos em sua primeira disputa por uma cadeira na Assembleia, superando os 29.844 de Gleice Jane. Foram 6.264 votos de diferença. Na eleição estadual de 2022, a petista havia recebido 9.767 votos e assumiu o mandato posteriormente, na condição de suplente.
Gianni Nogueira conquistou 36.108 votos em sua primeira disputa por uma cadeira na Assembleia, superando os 29.844 de Gleice Jane
Os números não substituem a avaliação de um mandato, mas deixam claro que Gianni chega ao Legislativo com respaldo expressivo. Desqualificar sua contribuição antes da posse também significa desconsiderar a escolha dos eleitores que confiaram nela.
Gleice terá oportunidade de confrontar propostas, cobrar posições e apontar contradições da futura colega. Por enquanto, porém, sua manifestação revela mais preconceito político do que disposição para reconhecer a pluralidade das mulheres.
A defesa das mulheres não é propriedade da esquerda. E uma deputada não precisa seguir a cartilha petista para ter o que acrescentar ao debate.
























