ANTONIO CARLOS TEIXEIRA (*)
Eu me considero um dos maiores defensores de Neymar na internet. Estou ao lado do craque desde sua estreia pelo Santos, em 2009. Sem recorrer ao passado distante, cito o antes, o durante e o depois da Copa do Mundo de 2026: passei dias rebatendo comentários maldosos e desproporcionais contra o nosso camisa 10.
No último sábado (24), porém, suas atitudes me irritaram profundamente. Considero-me uma pessoa calma, que pensa antes de falar. Nunca fui processado por excessos nas redes sociais nem nos meus textos sobre futebol e política.
Mas perdi a compostura diante da TV. Desde o início, percebi que Neymar estava naqueles dias. Enquanto o time dava no máximo dois toques na bola, ele insistia em segurá-la e tentar dribles numa zona perigosa do campo.
Até agora não está claro por que o jogo não parou. Na transmissão do Premiere, o árbitro chamou os capitães para avaliar as condições de continuidade da partida. Ambos parecem ter dado sinal positivo.
Até agora não está claro por que o jogo não parou
Se Neymar concordou, onde estavam Cuca e sua enorme comissão técnica para cobrar a interrupção num campo que parecia um mar? Se o treinador não teve personalidade para se impor, onde estava Alexandre Mattos, o CEO do futebol? E, se faltou autoridade a ambos, onde estava o presidente Marcelo Teixeira?
Como o Santos, um time leve, sem nenhum brucutu em campo, poderia querer jogar naquele gramado encharcado?
Naquele momento, cheguei a mandar mensagens a um alto dirigente santista. A partida não poderia prosseguir. Cinco minutos depois, veio o gol do Bahia. E agora?
Voltando ao destempero de Neymar: ele pediu desculpas ao fim da partida, mas chega, né? Quantas atitudes infantis o “Príncipe da Vila” acumulou desde seu retorno?
Quantas atitudes infantis o “Príncipe da Vila” acumulou desde seu retorno?
Contra o Bahia, jogou a bola em Rodrigo Nestor, que simulou ter sido atingido no rosto. A bola acertou a barriga ou a cintura. Ainda assim, Neymar merecia o amarelo e, como estava pendurado, desfalcaria o Santos contra o Palmeiras, um dos adversários mais difíceis deste Brasileiro.
Não satisfeito, voltou do intervalo ainda mais pilhado, querendo tirar satisfação com Nestor. Ora, quer dar o troco? Dê jogando bola. Quem estava pendurado era ele. Veio o ato final: falar com a boca tapada durante o confronto com o adversário, conduta passível de expulsão pela regra. Neymar foi bem expulso.
Nestor, por sua vez, tentou assumir o papel de bom moço no intervalo, mas simulou uma bolada no rosto e também já foi flagrado falando com a boca tampada. Isso não absolve Neymar nem torna as situações automaticamente equivalentes. A regra busca coibir ofensas ocultadas pelo gesto, inclusive racistas.
Contra o Bahia, jogou a bola em Rodrigo Nestor, que simulou ter sido atingido no rosto
O problema é que Neymar tem sido infantil. Arruma confusão com qualquer pé de rato, que o tira do sério por nada. Aos 34 anos, deveria comandar o Santos também emocionalmente. Sua experiência já deveria lhe permitir manter o equilíbrio, sobretudo quando provocado por um, repito, pé de rato.
Quero o Neymar de sábado longe do Santos a partir de 2027. Esse comportamento nada acrescenta ao clube e ainda deixa a equipe em situação embaraçosa, como já ocorreu em várias partidas. Contra o Bahia, o time se doou ao máximo para buscar o empate. Os dez jogadores em campo foram briosos, homens na plena acepção da palavra.
Quero o Neymar adulto, e não criança, para recolocar o Santos no seu lugar, jogando bola e honrando o legado de Pelé, principalmente na nobreza. Até aqui, o craque não faz jus ao posto de príncipe. Não pelo futebol, mas pelo sentido maior do “cargo”: liderar um grupo nos seus piores momentos.
O problema é que Neymar tem sido infantil. Arruma confusão com qualquer pé de rato, que o tira do sério por nada
Por fim, Cuca, Alexandre Mattos e a presidência do Santos parecem não ter personalidade suficiente para lidar com Neymar. A ordem da cobrança é essa: começa à beira do campo e sobe até o comando do clube.
Faltou firmeza de todos para exigir a paralisação da partida. A decisão cabia ao árbitro, mas a passividade santista diante daquele gramado encharcado teve peso direto no resultado.
(*) Torcedor e sócio do Santos, jornalista, assessor em órgão público, pós-graduado em Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e especialista em Criptoativos – Rastreamento, Ilícitos Criminais e Tributários (RFB).
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