ANTONIO CARLOS TEIXEIRA (*)
Os tempos em que jogadores do Santos assustavam os adversários dentro ou fora da Vila Belmiro parecem cada vez mais distantes. O clube que impunha respeito em casa hoje transmite uma imagem preocupante de fragilidade, conformismo e falta de espírito competitivo.
O Santos virou uma espécie de ovelha acuada em meio a predadores famintos.
Não se trata apenas de qualidade técnica. Falta imposição. Falta indignação. Falta aquela dose indispensável de inconformismo de quem entende que, dentro de casa, o adversário precisa sentir que está jogando na Vila Belmiro.
Hoje acontece justamente o contrário. Se o rival quer entrar, o tapete parece estendido.
Contra o Athletico, isso ficou evidente. No segundo gol do adversário, houve um lance anterior na entrada da área do CAP que poderia ter sido interpretado como falta a favor do Santos. O Athletico recuperou a bola, puxou o contra-ataque e marcou.
Não se trata apenas de qualidade técnica. Falta imposição. Falta indignação. Falta aquela dose indispensável de inconformismo
Não entro sequer no mérito de ter sido ou não falta. O que chama a atenção é outra coisa: praticamente ninguém do Santos reagiu. Ninguém cercou o árbitro Rafael Klein, ninguém cobrou explicações, ninguém demonstrou indignação ou exigiu atenção ao lance.
O Athletico fazia exatamente o contrário.
A cada decisão considerada equivocada, três, quatro, cinco jogadores se aproximavam do árbitro. Em um lance do segundo tempo, a bola bateu no peito de Ananias e imediatamente os jogadores adversários partiram para a cobrança. Queriam revisão, queriam explicação, queriam pressionar. Na jogada seguinte, novamente havia uma multidão em torno de Klein.
É assim que equipes competitivas se comportam. Não significa desrespeitar o árbitro nem transformar futebol em vale-tudo. Significa defender seus interesses dentro de campo.
Enquanto o Athletico mostrava os dentes, o Santos parecia baixar a cabeça.
Em um lance do segundo tempo, a bola bateu no peito de Ananias e imediatamente os jogadores adversários partiram para a cobrança
E aí voltamos à imagem da ovelha: acuada, silenciosa, esperando o abate dentro da própria casa enquanto os predadores disputam os pedaços.
Se fosse apenas um time excessivamente bonzinho, mas tecnicamente brilhante, talvez ainda desse para engolir. O problema é que o Santos de hoje, além de passivo, joga pouco. Fica intragável. Não desce nem com água.
Cuca também teve sua parcela de responsabilidade. Perdendo por 2 a 0 no intervalo, era evidente que o Santos precisava voltar diferente para o segundo tempo. O treinador fez o básico: tirou Caballero e colocou Rollheiser.
Era pouco.
A partida pedia ousadia. Era o momento, na minha avaliação, de colocar Robinho Jr. e Nadson, dois jogadores com capacidade de drible e de quebrar linhas. Poderia sacar Caballero e um entre Oliva e Schmidt.
Em vez disso, o Santos acumulou jogadores pelo meio e deixou Gabriel praticamente isolado entre três zagueiros. O resultado foi um time sem profundidade e incapaz de criar pressão suficiente para mudar a história da partida.
A partida pedia ousadia. Era o momento, na minha avaliação, de colocar Robinho Jr. e Nadson, dois jogadores com capacidade de drible e de quebrar linhas
Não defendo a demissão de Cuca. Pelo contrário. Entendo que o treinador tem méritos importantes e que o Santos ainda está vivo em diferentes competições também pelo trabalho dele.
Mas Cuca foi muito mal contra o Athletico. E já havia cometido erro semelhante contra o Remo, quando, mesmo com um jogador a mais, permitiu que o Santos recuasse exageradamente e quase entregasse o empate.
Faltou coragem.
O problema maior, porém, vai além do treinador e de uma partida ruim. É preciso recuperar uma característica que deveria ser inegociável para qualquer equipe do Santos: fome de vencer.
Falta gana. Falta personalidade. Falta espírito de competição. Falta transformar a Vila novamente em território hostil para quem chega do outro lado.
Não defendo a demissão de Cuca. Pelo contrário. Entendo que o treinador tem méritos importantes
O futebol brasileiro é uma selva. Há presas e predadores. Quem entra em campo esperando gentileza será engolido por quem disputa cada bola, cada espaço, cada decisão e cada centímetro do gramado como se fossem os últimos.
O Santos precisa decidir rapidamente de que lado pretende ficar.
Porque quem não demonstra fome corre sério risco de ser o último a se alimentar.
E aí, caríssimo santista, é caixão.
(*) Torcedor e sócio do Santos, jornalista, assessor em órgão público, pós-graduado em Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e especialista em Criptoativos – Rastreamento, Ilícitos Criminais e Tributários (RFB).
Perfil Twitter: @actbrasilia
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