COLUNA VAPT-VUPT (*)
Brasil afora, figuras pitorescas como Manoel Gomes, o Caneta Azul, Bolsonaro da Shopee, Mick Jagger, Xuxa do Amazonas, Zé Ninguém e Trezoitão apostam no ridículo para pedir votos em 2026.
Fora das urnas, outros personagens aproveitam as eleições em busca de seus 15 minutos de fama. É o caso da potiguar Bruninha do Boquete, no Instagram.
Mato Grosso do Sul também oferece sua contribuição ao espetáculo. Um dos exemplos é Café, candidato que chamou atenção ao se declarar, erroneamente, bilionário e pela semelhança com Tiririca.
Na disputa pelo governo estadual, sabe-se lá de onde surgiu Renato Gomes, o Economista Renato. O nome é absolutamente comum. O personagem, nem tanto.
Ele constrói sua presença eleitoral com um estilo capaz de fazer noveleiros mais antigos lembrarem do folclórico Sassá Mutema, protagonista vivido por Lima Duarte em O Salvador da Pátria, novela exibida no fim dos anos 1980.
Na disputa pelo governo estadual, sabe-se lá de onde surgiu Renato Gomes, o Economista Renato
No primeiro debate entre os candidatos ao governo, promovido pelo site Primeira Página e pela Morena FM, Renato ressuscitou uma expressão antiga, praticamente aposentada pela política moderna. Em vários momentos, anunciou: “Eu prometo”.
A frase foi repetida à exaustão, como mantra de candidato que ainda acredita bastar prometer para convencer. Faltou apenas olhar diretamente para a câmera, colocar a mão no coração e garantir que tudo será diferente desta vez.
A comparação com Sassá Mutema, porém, talvez seja ofensiva a Lima Duarte. Renato vai além das falas desajeitadas. Suas pequenas palestras carregam a alma do “especialista universal”: o personagem que entende de segurança, saúde, educação, economia, infraestrutura, agricultura e inteligência artificial — e que, dependendo da duração da entrevista, talvez também ofereça soluções para a astrofísica.
O problema começa quando suas promessas são confrontadas com a realidade. Parte do que apresenta como novidade já existe. Outra parte simplesmente não está entre as competências de um governador.
Renato ressuscitou uma expressão antiga, praticamente aposentada pela política moderna. Em vários momentos, anunciou: “Eu prometo
Controlar preços nos supermercados, interferir no valor de produtos e eliminar tributos federais estão entre as façanhas anunciadas pelo candidato. Como faria isso? Eis um detalhe aparentemente irrelevante para quem promete administrar o Estado como se comandasse o Banco Central, o Congresso Nacional, a Receita Federal e, nos fins de semana, as Nações Unidas.
Mais do que o proverbial rei na barriga, Renato parece acreditar que recebeu poderes mitológicos para mudar tudo com um estalar de dedos.
“Ó, Zeus, mande Atena trazer um pouco de sabedoria a este candidato”, poderia suplicar algum humorista preocupado com a concorrência desleal.
O ridículo tornou-se sua principal arma eleitoral. A caricatura se apoia no tom eloquente, nas frases grandiosas e nas soluções mágicas, não em propostas consistentes ou debates minimamente sérios.
Mesmo usando o próprio nome, Renato se encaixa facilmente na prateleira de personagens como Bolsonaro da Shopee, Xuxa do Amazonas, Zé Ninguém e Bruninha do Boquete. Com o Caneta Azul, Manoel Gomes, já divide o sobrenome.
O ridículo tornou-se sua principal arma eleitoral. A caricatura se apoia no tom eloquente, nas frases grandiosas e nas soluções mágicas
A cada eleição surge uma nova safra de figuras dispostas a explicar como o mundo deveria funcionar, normalmente em um vídeo de 47 segundos gravado dentro de um carro, acompanhado da promessa de ser “diferente de tudo o que está aí”.
Renato faz parte dessa trupe. Pode até render algum deboche durante os 45 dias de campanha, mas personagens assim também representam um risco: transformam propostas inexequíveis em entretenimento e nivelam por baixo uma escolha tão séria quanto a de quem governará o Estado.
As eleições brasileiras têm essa curiosa capacidade de misturar política, espetáculo, estratégia, demagogia e enredo de série ruim.
O eleitor acompanha tudo como espectador: alguns personagens já são conhecidos, outros entram no elenco na última hora e sempre aparece aquele que ninguém sabe exatamente como foi parar ali — mas que fará qualquer coisa para receber um pouco de atenção.
























