EDITORIAL
A campanha eleitoral começa oficialmente neste domingo, dia 16. A partir daí, partidos e candidatos estarão autorizados a pedir votos abertamente ao eleitor.
Mas, em Mato Grosso do Sul, a guerra dos números parece ter começado antes.
Um levantamento eleitoral divulgado às vésperas do início da campanha apresenta um resultado que merece ser examinado com lupa: o crescimento meteórico do petista Vander Loubet na disputa pelo Senado.
A estratégia política de Vander começou a ficar mais clara no dia 3 de agosto, quando o senador Nelsinho Trad (PSD) já havia anunciado oficialmente sua desistência.
Para que uma narrativa de crescimento ganhasse força, algumas peças precisariam se encaixar: declarações favoráveis, repercussão na imprensa, apoio de lideranças e movimentação nas redes sociais.
Faltava o ingrediente mais poderoso: números que sustentassem a tese. Dez dias depois, eles apareceram. E com força.
Levantamento eleitoral divulgado às vésperas do início da campanha apresenta um resultado que merece ser examinado com lupa
Como num passe de mágica, no cenário para o primeiro voto, Vander cresceu quase sete pontos percentuais em apenas dez dias, ou 62% em relação à pesquisa anterior. Já Capitão Contar (PL) registrou crescimento de apenas dois pontos percentuais, 51% abaixo do avanço atribuído ao petista.
Se esse movimento refletir efetivamente uma mudança do eleitorado, estaremos diante de uma arrancada impressionante. Afinal, Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, ambos do PL, ocupam as primeiras posições em levantamentos divulgados ao longo dos últimos anos.
É justamente por isso que uma oscilação dessa magnitude precisa ser explicada.
Pesquisa eleitoral não deveria servir para fabricar fatos políticos. Deveria fazer exatamente o contrário: medir os fatos políticos.
Instituto sério não existe para produzir manchete conveniente, criar candidatura competitiva no papel ou construir a percepção de crescimento. Existe para retratar, dentro das limitações estatísticas, aquilo que está acontecendo nas ruas.
Se esse movimento refletir efetivamente uma mudança do eleitorado, estaremos diante de uma arrancada impressionante
Quando os números começam a desafiar demasiadamente a realidade percebida, surgem perguntas.
Qual foi a metodologia? Onde foram realizadas as entrevistas? Qual o perfil da amostra? Houve mudanças em relação ao levantamento anterior? O que explica uma variação tão expressiva em período tão curto?
São perguntas legítimas e deveriam interessar aos próprios institutos, porque pesquisa eleitoral depende de uma matéria-prima que dinheiro nenhum compra: credibilidade.
Nos bastidores da política sul-mato-grossense, há anos circulam críticas e acusações sobre levantamentos utilizados para valorizar candidaturas, influenciar negociações partidárias e produzir fatos políticos. Acusações precisam ser comprovadas, evidentemente. Mas, justamente por serem recorrentes, não deveriam ser ignoradas.
Se há suspeitas, que sejam investigadas. Se são falsas, que os institutos demonstrem a correção de seus trabalhos. Se houver irregularidades, que os responsáveis respondam por elas.
Há anos circulam críticas e acusações sobre levantamentos utilizados para valorizar candidaturas, influenciar negociações partidárias e produzir fatos políticos
Curiosamente, enquanto pesquisas destinadas à divulgação pública produzem resultados capazes de provocar espanto, partidos e candidatos gastam cada vez mais com levantamentos para consumo interno.
A razão é simples.
Pesquisa interna não precisa produzir manchete, animar militância, impressionar dirigente partidário nem criar sensação de crescimento. Quem paga para conhecer a realidade quer a realidade.
É aí que Ministério Público Eleitoral, Justiça Eleitoral e demais órgãos competentes têm um importante campo para fiscalização.
Comparem levantamentos. Examinem metodologias. Verifiquem amostras, questionários, contratantes, pagamentos e eventuais discrepâncias. Havendo indícios de irregularidades, aprofundem as investigações.
Pesquisa eleitoral é instrumento importante da democracia, mas somente enquanto mede a vontade do eleitor.
Quando os números são manipulados, não estamos mais diante de pesquisa. Estamos diante de fraude contra a opinião pública.
























