LARISSA ARRUDA, DE BRASÍLIA | BRUNNA SALVINO, DE CAMPO GRANDE
Uma virada de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno é muito improvável diante da vantagem construída nas urnas e das tendências de transferência de votos. É o que apontam análises do economista Guilherme Esteter e do engenheiro de produção com ênfase em software Pedro Menin, às quais o MS em Brasília teve acesso.
Em avaliações distintas, ambos sustentam que o presidente enfrenta uma combinação difícil de superar: começou atrás e, nos levantamentos examinados, não recebe dos candidatos eliminados os votos necessários para alcançar o adversário.
O ponto de partida é uma diferença de aproximadamente 2,225 milhões de votos em favor de Flávio. Para os analistas, mantidos os votos dos dois finalistas e um padrão semelhante de comparecimento, Lula precisaria conquistar uma vantagem expressiva entre os eleitores que escolheram outros candidatos no primeiro turno.
O ponto de partida é uma diferença de aproximadamente 2,225 milhões de votos em favor de Flávio
Pelos números apresentados por Menin, essas candidaturas reuniram cerca de 9,32 milhões de votos. Nesse universo, o petista precisaria superar Flávio por aproximadamente 24 pontos percentuais para compensar a desvantagem inicial.
O TAMANHO DA VIRADA
| Vantagem de Flávio no primeiro turno | 2.224.965 votos |
| Votos dos candidatos eliminados | 9.316.747 votos |
| Vantagem que Lula precisaria abrir nesse grupo | 23,9 pontos percentuais |
Divisão necessária se todos esses eleitores escolhessem um dos finalistas:
LULA: 61,9% × FLÁVIO: 38,1%
Condições: manutenção dos votos dos finalistas e do comparecimento. Cálculos apresentados por Pedro Menin.
Isso significa que não bastaria vencer por uma margem pequena entre os eleitores dos candidatos eliminados. Seria necessário abrir uma diferença de cerca de 2,225 milhões de votos nesse grupo.
“Se todos esses eleitores escolhessem um dos dois finalistas, a divisão necessária seria próxima de 62% para Lula e 38% para Flávio”, explica Menin, formado em Economia e Finanças pela Universidade de Londres.

O problema para o presidente, segundo os dois autores, é que as pesquisas citadas apontam na direção contrária.
Esteter menciona levantamento BTG Pactual/Nexus no qual Flávio recebe 55% das intenções de voto entre os eleitores de Ronaldo Caiado, contra 27% de Lula. Mesmo entre os que escolheram Augusto Cury, grupo mais equilibrado nos números apresentados, o candidato do PL aparece à frente: 43% a 41%.
“Se todos esses eleitores escolhessem um dos dois finalistas, a divisão necessária seria próxima de 62% para Lula e 38% para Flávio” — Pedro Menin
Segundo o economista, a ponderação pelo tamanho dos eleitorados dos candidatos eliminados deixa Lula com aproximadamente 32% desses votos, percentual distante do necessário no cenário de comparecimento e fidelidade mantidos.
“Fazendo a conta com o tamanho de cada eleitorado, ele leva perto de 32% desses votos, quando precisa, na verdade, de 62%”, afirma Esteter.
PARA ONDE VÃO OS VOTOS?
Transferência entre eleitores dos candidatos eliminados:
| Eleitores de… | Flávio | Lula |
|---|---|---|
| Ronaldo Caiado | 55% | 27% |
| Augusto Cury | 43% | 41% |
Nos dois grupos, Flávio aparece à frente.
Fonte: pesquisa BTG Pactual/Nexus citada por Guilherme Esteter. Os percentuais restantes correspondem às demais respostas do levantamento.
Menin chega a uma conclusão semelhante ao trabalhar com os percentuais da Quaest. Pelos cálculos apresentados, Flávio receberia aproximadamente 3,42 milhões de votos dos candidatos eliminados. Mantida essa transferência, Lula precisaria conquistar cerca de 5,65 milhões para ultrapassá-lo.
Esteter menciona levantamento BTG Pactual/Nexus no qual Flávio recebe 55% das intenções de voto entre os eleitores de Ronaldo Caiado, contra 27% de Lula
Isso representaria aproximadamente 95,8% dos votos restantes desse universo, deixando uma margem mínima para abstenções, brancos e nulos entre esses eleitores.
A dificuldade, portanto, não estaria apenas em atrair apoios. Lula precisaria obter uma distribuição de votos muito mais favorável do que aquela considerada nas projeções.
Os movimentos políticos também entram na avaliação. Esteter destaca os apoios de Caiado, Cury e Romeu Zema a Flávio, enquanto Renan Santos optou pela neutralidade. Embora o apoio de um candidato não determine o voto de seus eleitores, o economista considera que essas manifestações reforçam o cenário descrito pelos levantamentos.

Resta ao petista buscar votos em outras frentes: conquistar quem escolheu Flávio no primeiro turno e mobilizar eleitores que se abstiveram ou votaram em branco ou nulo.
Lula precisaria obter uma distribuição de votos muito mais favorável do que aquela considerada nas projeções
Menin cita que, na Quaest examinada, 43% do grupo formado por abstencionistas e eleitores de votos brancos e nulos declaravam intenção de votar em Lula. A eventual vantagem nesse segmento, porém, depende de quantos efetivamente comparecerão e escolherão um voto válido.
A CONTA APERTADA PARA LULA
Simulação de Pedro Menin com os percentuais da Quaest:
| Votos dos candidatos eliminados projetados para Flávio | 3,42 milhões |
| Votos desse grupo que Lula precisaria conquistar para ultrapassá-lo | 5,65 milhões |
| Parcela dos votos restantes que Lula precisaria obter | 95,8% |
Mantida a projeção de Flávio, Lula precisaria conquistar quase todos os votos restantes desse grupo.
Condições: manutenção dos votos dos finalistas e do comparecimento. Os números são uma simulação condicionada, não uma probabilidade de vitória.
Esteter acrescenta um componente regional: segundo os dados apresentados em sua análise, a abstenção foi menor no Nordeste, onde Lula tem melhor desempenho, e maior no Sudeste, onde Flávio leva vantagem. Na interpretação do economista, a mobilização de quem ficou em casa tampouco representa um ganho automático para o presidente.
A convergência entre as duas análises é clara: a transferência de votos considerada por ambos favorece Flávio e torna estreito o caminho de Lula. Para virar, o petista precisaria modificar as tendências utilizadas nos cálculos, combinando maior mobilização com conquista de eleitores do adversário.
A convergência entre as duas análises é clara: a transferência de votos considerada por ambos favorece Flávio e torna estreito o caminho de Lula
São projeções condicionadas ao comportamento do eleitorado, e não uma garantia de resultado. No entanto, Esteter e Menin avaliam que a matemática oferece a Flávio uma posição muito mais confortável para a disputa.
ABSTENÇÃO: NORDESTE E SUDESTE
Percentual de eleitores que não compareceram no primeiro turno:
| Região | Abstenção | Melhor desempenho eleitoral |
|---|---|---|
| Nordeste | 18% | Lula |
| Sudeste | Quase 23% | Flávio Bolsonaro |
A abstenção no Sudeste foi cerca de 5 pontos percentuais maior que no Nordeste.
Na avaliação de Guilherme Esteter, mobilizar quem não votou também pode beneficiar Flávio. O retorno desses eleitores às urnas não representa ganho automático para Lula.
Fonte: dados citados por Guilherme Esteter. Percentuais aproximados; o voto dos abstencionistas não pode ser determinado apenas pela região onde vivem.
Mobilização nacional
Mesmo diante das análises favoráveis, a campanha de Flávio Bolsonaro iniciou, na quarta-feira (14), uma mobilização nacional para ampliar a vantagem sobre Lula. O objetivo é reforçar o comparecimento dos apoiadores às urnas e assegurar a vitória no segundo turno, marcado para o dia 25.
Em Campo Grande, o governador Eduardo Riedel (PP) e os senadores eleitos Capitão Contar e Reinaldo Azambuja, ambos do PL, reuniram dezenas de prefeitos e lideranças de direita e centro-direita. Além dos discursos em apoio a Flávio, a mobilização incluiu distribuição de material de campanha e adesivagem de carros e motos.

Até o dia 24, véspera da eleição, estão previstas manifestações em todo o país. Em São Paulo, apoiadores de Flávio vão se reunir na Avenida Paulista a partir das 11 horas de domingo (18). Desde os protestos contra o governo de Dilma Rousseff (PT), em 2015, a avenida se consolidou como um dos principais palcos de manifestações da direita e da centro-direita.
























