COLUNA VAPT-VUPT (*)
O posicionamento de um político filiado ao PL provocou irritação em grupos bolsonaristas de Mato Grosso do Sul. O prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro, anunciou apoio à candidatura do deputado federal Vander Loubet (PT) ao Senado.
Na tentativa de explicar a decisão, Ferro reforçou uma percepção cada vez mais comum entre os eleitores: para alguns políticos, a sigla partidária parece ser apenas uma exigência eleitoral, sem maior compromisso com coerência política ou ideológica.
O prefeito justifica o apoio afirmando que Vander tem destinado emendas parlamentares ao município e que o deputado “não vê cores partidárias” na distribuição dos recursos.
O argumento, porém, permite a leitura inversa. Se Vander não considera a cor partidária ao destinar emendas, o apoio político também não deveria ser consequência desses recursos.
Afinal, emenda parlamentar não é dinheiro do deputado. É dinheiro público, retirado dos impostos pagos pelos brasileiros.
Emenda parlamentar não é dinheiro do deputado. É dinheiro público, retirado dos impostos pagos pelos brasileiros
Ao vincular publicamente seu apoio aos recursos destinados ao município, Ferro expõe uma das faces mais incômodas da política brasileira: a facilidade com que dinheiro público, alianças eleitorais e conveniências locais acabam misturados no mesmo discurso.
E vai além. Ao tratar com naturalidade o apoio a um candidato do PT mesmo sendo filiado ao PL, normaliza aquilo que parte de sua própria base política considera traição.
Não se trata de exigir fidelidade cega nem de impedir que políticos dialoguem com adversários. Administrar uma cidade pressupõe relacionamento institucional com parlamentares e governos de diferentes partidos. Outra coisa é transformar essa relação administrativa em apoio eleitoral.
A diferença é enorme.
A decisão ocorre justamente quando a direita brasileira concentra esforços para ampliar sua representação no Senado.
Para esse campo político, a composição da Casa será decisiva nos próximos anos, especialmente porque cabe aos senadores analisar indicações para o Supremo Tribunal Federal e processar e julgar ministros da Corte nos casos previstos pela Constituição.
Ao tratar com naturalidade o apoio a um candidato do PT mesmo sendo filiado ao PL, normaliza aquilo que parte de sua própria base política considera traição
Sob essa perspectiva, apoiar um candidato do PT ao Senado significa trabalhar eleitoralmente contra uma das principais estratégias nacionais do próprio campo político ao qual pertence o PL.
Também chama atenção a tentativa de reduzir uma eleição para o Senado aos benefícios imediatos recebidos pelo município.
O voto para senador não trata apenas do asfalto da rua, da reforma de uma praça ou dos recursos destinados à saúde local.
Senadores votam leis nacionais, alterações constitucionais, indicações para tribunais superiores e decisões com repercussão sobre temas como liberdade de expressão, segurança pública, impostos e equilíbrio entre os Poderes.
Juliano Ferro, que costuma explorar a imagem de “prefeito mais louco do Brasil”, sentiu a reação nas redes sociais. Mas há outro aspecto talvez ainda mais importante: voto de cabresto pertence ao passado.
O voto para senador não trata apenas do asfalto da rua, da reforma de uma praça ou dos recursos destinados à saúde local
Prefeito não é dono dos votos de uma cidade.
O eleitor recebe informação por diferentes meios, acompanha a política nacional e tem condições de separar uma obra municipal daquilo que considera melhor para o Estado e para o País.
Pode reconhecer uma emenda destinada ao município e, ao mesmo tempo, escolher outro candidato ao Senado.
É aí que o episódio de Ivinhema ganha dimensão maior do que uma simples declaração de apoio.
O problema não está no diálogo entre adversários. Isso faz parte da democracia. Tampouco em receber recursos apresentados por um parlamentar de outro partido — dinheiro público deve chegar aos municípios independentemente da legenda de seus prefeitos.
A questão é outra: até que ponto ainda existe sentido em pertencer a um partido político quando, chegada a eleição, seus princípios, projetos e candidatos podem ser colocados de lado por conveniência?
Até que ponto ainda existe sentido em pertencer a um partido político quando, chegada a eleição, seus princípios, projetos e candidatos podem ser colocados de lado por conveniência?
Juliano Ferro pode apoiar quem desejar e responder politicamente por sua escolha. Da mesma maneira, os eleitores têm o direito de questionar a coerência de um prefeito filiado ao PL que, numa eleição considerada estratégica pelo próprio partido, decide trabalhar pela eleição de um candidato do PT.
No fim das contas, o episódio revela algo preocupante: quando conveniência passa a valer mais do que coerência, a traição deixa de causar constrangimento e começa a ser tratada como algo normal.
E talvez seja justamente essa normalização que mais explique a falta de pudor de parte da política brasileira.
(*) Vapt-Vupt é uma coluna do MS em Brasília com opiniões sobre determinado fato de interesse público

























