COLUNA VAPT-VUPT (*)
Depois de afirmar que bolsonaristas não compreendem as letras compostas pelo Titãs ao longo da carreira, o guitarrista Tony Bellotto se apresentará em Campo Grande no próximo dia 29 de agosto, ao lado da banda.
Em entrevista recente ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Bellotto disse que não se incomoda em perder seguidores por causa de suas posições políticas e afirmou considerar mais importante “defender a democracia”.
“Temos fãs bolsonaristas. Como é que pode, com as letras que a gente sempre fez? O cara não deve estar entendendo direito. Sempre fomos a favor dos direitos individuais, contra o reacionarismo. Às vezes fazemos algumas publicações e perdemos alguns seguidores, mas isso é nada perto de algo mais importante: defender a democracia.”
“Temos fãs bolsonaristas. Como é que pode, com as letras que a gente sempre fez? O cara não deve estar entendendo direito
O músico também criticou artistas como Lobão e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, por apoiarem a direita, afirmando ter se decepcionado com ambos por entender que o rock está associado à liberdade, à democracia e aos direitos individuais.
Os dois rebateram Bellotto. No X, Roger Moreira escreveu: “Inaceitável é apoiar essa ditadura que você apoia. O espantalho que vocês temem esteve quatro anos no poder e não cometeu nenhuma das atrocidades que esse governo comete, com gente exilada, censurada e perseguida simplesmente por ter opiniões contrárias. É isso que você apoia, babaca.”
Lobão também respondeu: “Se o nosso roqueiro está querendo saber sobre o que ando fazendo e declarando, será melhor se ater aos fatos e não fazer especulações levianas e caluniosas.”
“Inaceitável é apoiar essa ditadura que você apoia” — Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, em resposta a Tony Bellotto
Em seguida, acrescentou: “Minha TL do Twitter e minhas páginas do Facebook estão lotadas de alertas contra grupos a favor de intervenção militar e advertências quanto à cretinice do separatismo.”
O cantor e escritor concluiu afirmando que Bellotto “joga para determinada plateia de forma pusilânime”.
À parte a polêmica envolvendo outros roqueiros, o discurso de Tony Bellotto revela uma visão seletiva do cenário político brasileiro.
Enquanto o músico afirma defender a democracia, evita abordar episódios que seus críticos apontam como ameaças às liberdades individuais, especialmente decisões judiciais relacionadas à moderação de conteúdos em redes sociais e investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal.
Também chama atenção que artistas engajados em pautas de esquerda raramente demonstrem a mesma indignação diante dos grandes escândalos de corrupção que marcaram governos petistas ou de denúncias recentes envolvendo a administração federal, como o esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.
Chama atenção que artistas engajados em pautas de esquerda raramente demonstrem a mesma indignação diante dos grandes escândalos de corrupção que marcaram governos petistas
O combate à corrupção, que durante anos mobilizou parcela significativa da sociedade brasileira, praticamente desapareceu do discurso de boa parte desse segmento artístico.
A defesa da democracia perde força quando deixa de ser um princípio universal para se transformar em instrumento de conveniência política. Liberdade de expressão, devido processo legal e igualdade perante a lei devem valer para todos, inclusive para quem pensa diferente.
Campo Grande, cidade de perfil majoritariamente conservador, receberá Tony Bellotto e o Titãs em agosto. Caberá ao público decidir se separa a obra da posição política de seus artistas ou se prefere prestigiar aqueles que demonstram coerência entre o discurso sobre liberdade e a defesa desse princípio para todos os brasileiros, Independentemente de sua orientação política.
(*) Vapt-Vupt é uma coluna do MS em Brasília com opiniões sobre determinado fato de interesse público























