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OPINIÃO: Por que artistas sempre acham que estão do lado certo da história?

Nasi, vocalista da banda Ira!, usa o microfone como porrete a serviço de uma causa, sem se importar com opiniões discordantes

REDAÇÃO Por REDAÇÃO
13 de abril de 2025
em Opinião
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OPINIÃO: Por que artistas sempre acham que estão do lado certo da história?

Cantor Nasi atacou plateia bolsonarista que vaiou sua defesa contra a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro (Foto: Divulgação)

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POR ALEXSANDRO NOGUEIRA (*)

Há uma cena desconfortável e, por isso mesmo, reveladora. No filme Mefisto, de István Szabó. um ator alemão, vaidoso e encantado com a própria aura, aceita lamber as botas do regime nazista em troca de prestígio e contratos.

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Sua arte, diz ele, é neutra. Mas nada é neutro quando se abraça a ideia dos governantes. Sobretudo poderes que cafetinam a miséria e a servidão.

Aviso aos simpatizantes: a história não costuma ser impiedosa com os cúmplices do silêncio.

Na década de 1950, o lituano Czesław Miłosz, Nobel de Literatura, escreveu “A Mente Cativa”, não como panfleto, mas como um diagnóstico.

A história não costuma ser impiedosa com os cúmplices do silêncio

O escritor explica, com frieza, por que tantos intelectuais, poetas, atores e músicos se entregam com alegria ao jugo dos governantes, tornando-se servis, aderentes, acríticos.

Não é só medo do esquecimento coletivo, é por vaidade, além da bajulação que governos parecem oferecer aos artistas medíocres: o palco, a ilusão de relevância e o aplauso dos falsos e hipócritas.

Pensei nisso quando li, com constrangimento e um pouco de náusea, o episódio em que o vocalista da banda Ira! (ironias da vida) humilhou um espectador que pediu anistia aos presos do 8 de janeiro.

Mas o cantor Nasi preferiu impor um grito ao invés de argumentar. Usou o microfone como porrete, e ali, diante do público, encarnou o velho clichê do artista brasileiro: o justiceiro armado e a superioridade moral. Ódio do bem?

Mas o cantor Nasi preferiu impor um grito ao invés de argumentar. Usou o microfone como porrete, e ali, diante do público

Não importa aqui o mérito da anistia, aliás tema legítimo de debate. O que me incomoda é a atitude. A reação impensada, o fígado no lugar do cérebro.

É o gosto pela repressão, pela execração pública, pela certeza de que há um lado certo da história (e esse lado, claro, é sempre o deles, ou seja, aquele que converge com as nossas relações de afeto, sem se importar que o outro discordante exista).

Intelectuais e artistas brasileiros há décadas se comportam como casta diferenciada, convencida de que suas opiniões vêm com selo de pureza. Mas, como ensinou Milosz, é precisamente essa certeza que os torna tão perigosos e cada vez mais irrelevantes. Os donos da virtude no fundo são fanáticos que acreditam que suas causas estão no mercado para salvar os pecadores.

Talvez falte a eles o que sobrava em George Orwell: a capacidade de duvidar da própria opinião e da própria tribo. De denunciar o arbítrio, mesmo quando praticado pelos seus. O artista que se coloca a serviço de uma causa — qualquer causa — deixa de ser livre. Torna-se funcionário, servo, acólito. E há algo de servidão na forma como muitos hoje se ajoelham diante dos patrões do Governo Federal.

Intelectuais e artistas brasileiros há décadas se comportam como casta diferenciada, convencida de que suas opiniões vêm com selo de pureza

A arte torna-se decadente e anódina na medida em que a verba pública compra corações e mentes sem a mínima complacência.

A história já viu isso. Viu poetas soviéticos louvando Stalin. Viu cineastas chineses cantando Mao. Viu músicos cubanos transformados em porta-vozes da prisão política.

E agora vemos, no Brasil, artistas promovendo o linchamento moral de quem ousa pensar diferente. Tudo com uma panca de heroísmo e rebeldia. Mas rebeldia patrocinada por verbas públicas é só bajulação com pose. Triste isso.

Não me espanta que artistas escolham o lado errado da história. A maioria sempre escolheu. Espanta-me que ainda se surpreendam quando a plateia os abandona. O público não é burro. Pode ser enganado por um tempo, mas não o tempo todo.

A arte verdadeira não mora em slogans, em chavões (ah, o amor venceu o ódio), mas na inquietação, na dúvida e na liberdade.

E liberdade de opinião e escolha, como sabemos, é o que menos interessa aos que gritam pelo bem comum com a mente cativa.

(*) É jornalista, músico e escritor

Tags: alexsandro nogueiraanista 8 de janeiroartistasataquebolsonaristasbrasilcolunistaescritorgovernoideologiairãladonasishowsubserviência
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